
Acusação por assassinato de cidadãos americanos em 1996 eleva tensão e pode sinalizar ação militar dos EUA contra a ilha
O governo dos Estados Unidos indiciou o ex-presidente de Cuba, Raúl Castro, por assassinato e conspiração para matar cidadãos americanos. As acusações estão relacionadas à derrubada de dois aviões civis pertencentes à organização de exilados cubano-americanos “Irmãos ao Resgate”, ocorrida em 1996. O episódio resultou na morte de quatro pessoas, sendo três delas cidadãs americanas.
À época do ataque, Raúl Castro ocupava o posto de ministro da Defesa de Cuba e, segundo os procuradores, teria dado a ordem para o abate das aeronaves. Além da acusação de assassinato, o indiciamento inclui as charges de conspiração para matar cidadãos americanos e destruição de aeronaves.
O procurador-geral interino, Todd Blanche, afirmou que os Estados Unidos dispõem de diversas maneiras de levar Castro à Justiça.
Pressão econômica, militar e diplomática
O indiciamento se insere em um contexto de escalada de pressões americanas sobre Havana. Washington mantém um severo embargo econômico contra Cuba e um bloqueio ao fornecimento de petróleo, o que mergulhou a ilha em grave crise energética e humanitária.
No campo militar, o porta-aviões USS Nimitz, capaz de transportar mais de 70 aeronaves de combate, chegou ao Caribe, intensificando os temores de uma ação indireta contra o país. Miguel Díaz-Canel, que lidera o governo cubano, já prometeu resistência armada caso qualquer força de invasão entre no território nacional.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna destacou que, dias antes do indiciamento, o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve em Havana no dia 14 de maio levando uma mensagem da administração americana.
A mensagem exigia que Cuba deixasse de ser um hub de espionagem para países como China, Rússia e Irã, oferecendo em troca prosperidade econômica e o fim do embargo.
Dois dias depois, Cuba anunciou a compra de 300 drones do modelo Shahid, do Irã, com doutrina de emprego russa e inteligência de alvos chinesa. “A combinação iraniana. É um pacote difícil de engolir”, comentou Sant’Anna.
Cuba como alternativa após impasse no Irã
O analista para a América Latina da Rane Mário Braga avaliou que o indiciamento de Raúl Castro segue a mesma lógica adotada no caso da Venezuela, buscando dar um “verniz de legalidade” a uma eventual operação de captura ou ação militar, enquadrando-a como uma medida de “law enforcement”.
Segundo Braga, após a situação no Irã não ter evoluído conforme a ambição inicial da administração americana, Cuba surge como uma alternativa para redirecionar o foco político e oferecer uma narrativa de vitória. “Cuba surge como uma alternativa, seja de redirecionar o foco, seja de mudar o debate doméstico”, afirmou o analista.
Braga ponderou, no entanto, que o regime cubano é coeso e que parte de suas forças armadas possui viés ideológico consolidado, o que tornaria qualquer ação militar mais complexa do que aparenta.
Ele ressaltou ainda que, diferentemente da Venezuela, Cuba não dispõe de commodities de interesse imediato para os americanos, mas que o setor de turismo, o mercado imobiliário e recursos minerais como o cobre podem representar atrativos econômicos relevantes.
“O Trump tem um império imobiliário, e isso também entra como um ângulo que a gente tem que levar em consideração ao pensar na abordagem do Trump em relação à Cuba”, observou Braga.
Cuba sinaliza disposição para negociar
Apesar da escalada de tensões, o governo cubano tem adotado uma postura de abertura ao diálogo. Segundo Lourival, durante a visita de Ratcliffe, representantes cubanos garantiram que não autorizariam nem apoiariam ações terroristas contra os Estados Unidos, nem permitiriam o uso do território cubano para esse fim.
Além disso, o embaixador de Cuba nas Nações Unidas concedeu entrevista ao jornal The New York Times sinalizando disposição para negociar. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fez um discurso em espanhol no aniversário de 124 anos da independência de Cuba, propondo uma nova via para as relações entre os dois países.
Paralelamente, parte do Senado americano avançou com um projeto que forçaria a administração a encerrar o conflito no Irã ou a pedir autorização do Congresso para continuá-lo. A medida ainda precisa passar por dois novos votos no Senado e seguir para a Câmara dos Representantes.
Para o analista da Rane, o movimento legislativo pode servir tanto como pressão sobre a administração quanto como um recurso político para atribuir aos democratas eventuais fracassos na política externa. “Se não der certo, foi porque os democratas bloquearam ou enfraqueceram a postura que o Trump poderia ter”, analisou Braga.
Fonte: CNN
