
Kauê Fuoco e Fernanda Romão, dupla por trás da plataforma de eventos Kura, inauguraram há cerca de um mês um espaço cultural no edifício Cotonifício, antigo lar do Municipal Hotel, em frente ao largo do Paissandu.
Com a experiência acumulada de levar eventos a espaços improváveis da cidade e planos para serem tirados do papel, o Kura Urbana nome em teste começou suas atividades em meio a reformas no prédio histórico na avenida São João. A abertura se deu com a exposição “Para Falar de Amor: do que Somos Capazes”, que durou cerca de um mês e saiu de cartaz no último sábado.
É o resultado da produção de mais de 50 artistas que utilizaram o espaço como ateliê, a exemplo dos grafiteiros Alex Senna e Jaime Prades e os artistas plásticos Marcos Cavallaria e Guto Lacaz.
O Cotonifício tem cinco andares. Centenário, passou por reparos nos últimos anos para adequá-lo às normas atuais de segurança. Boa parte da estrutura em madeira, como as escadas, foi substituída, e algumas janelas precisaram ser realocadas. Apesar disso, muito da sua estrutura original continua ali, e as renovações foram planejadas para serem coerentes com o espaço.
As paredes foram deixadas peladas, com os tijolos à mostra ou apenas cobertas com cimento. Certo charme de ruína que há ali conversa com a vontade dos novos ocupantes de preservar um aspecto inacabado no ambiente.
“A gente tenta ser mais despojado, para quem vier aqui se sentir parte, e não achar que somos pessoas endinheiradas que convidaram artistas famosos e montaram um negócio”, diz Kauê Fuoco, o criador do Kura.
“Do que somos capazes vem de querermos mostrar que conseguimos fazer uma exposição deste tamanho sem leis de incentivos ou patrocinadores.”
Segundo Romão, sua companheira e parceira de negócios, o Kura até prefere trabalhar sem nenhum apoio. Isso porque esse tipo de parceria demandaria cronogramas estritos, e eles preferem evitar o desgaste e fazer as coisas com calma.
Com o fim da exposição, o espaço está fechado para visitação, ao menos por enquanto. Para o futuro, nada está escrito em pedra, mas os planos são muitos. O térreo deve ficar aberto para o público geral e abrigar um restaurante e uma loja de upcycling, com peças de design feitas de materiais reaproveitados. No andar mais alto, planeja-se fazer quartos temáticos para aluguel. Os outros pisos acolherão exposições, cursos e eventos variados.
O Kura surgiu há apenas seis anos, em 2020, e desde então se dedica a organizar encontros em edifícios históricos ou espaços abandonados da cidade. Em 2022, por exemplo, 40 convidados foram conduzidos às escuras a um túnel abandonado, em uma parte do Rodoanel próxima à serra da Cantareira, para um jantar com direito a show de pirotecnia.
O novo espaço não é o primeiro ponto fixo da dupla. Em março, a marca abriu o Ateliê Kauê Fuoco (r. Basílio da Gama, 116, República), reservado para eventos privados. Já suas outras ações foram todas temporárias. Normalmente aconteciam em parceria com incorporadoras, e logo precisavam dar licença para que os espaços recebessem novos usos.
O Cotonifício Paulista pertence a Marcos Tchalian e família, que são proprietários de outros imóveis em São Paulo. Por quase um século, abrigou o Municipal Hotel, que teve as operações encerradas em 2010 por problemas em sua estrutura, que já não atendia aos critérios de segurança.
Conheceu Fuoco no fim do ano passado, quando começaram as conversas que levaram à nova vida do lugar. “Parece que a vocação do prédio é seguir nessa linha da cultura”, afirma Tchalian. “Foi uma surpresa muito agradável, e as pessoas estão gostando muito.”
A relação de Fuoco com o centro de São Paulo está ligada ao sentimento de pertencimento, diz. “Quando vim para cá pela primeira vez, senti que poderia ser quem eu era, usar a roupa que quisesse, falar como quisesse.”
“As pessoas se preocupam com segurança, mas outros lugares tem questões que acho até mais importantes, como se sentir observado, superior ou inferior aos outros, coisa que não existe aqui.”
KURA URBANA
Av. São João, 354, Centro Histórico. @kura.te
Fonte: FolhaPress
