
A vida de Jeff Buckley é tão extraordinária e marcada por triunfos, tragédias e coincidências, que até parece ficção. A plataforma Prime Video acaba de estrear o documentário “Its Never Over, Jeff Buckley”, que emociona o espectador ao contar essa história.
Jeff era filho do genial cantor folk Tim Buckley (1947-1975), mas só conheceu o pai por alguns dias, porque Tim abandonou a esposa, Mary, ainda grávida. Mary tinha 17 anos e criou sozinha o filho na Califórnia até casar com Ron Moorhead, um fã de rock que apresentou o menino à música de Led Zeppelin, Pink Floyd e Jimi Hendrix. Quando Jeff tinha oito anos, a mãe o levou para ver um show do pai, e Tim ficou com o menino por quatro dias. No ano seguinte, Tim Buckley morreu de overdose de heroína. Tinha 28 anos de idade.
Jeff herdou do pai o visual de galã de cinema à James Dean e uma voz fora de série. Também era um exímio violonista e praticava imitando gênios do instrumento como Al Di Meola. Seus cantores prediletos eram o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e a diva Nina Simone. Depois de tocar em diversas bandas de rock na Califórnia, Jeff mudou-se para Nova York no início de 1990 e logo caiu de cabeça na cena de música experimental que acontecia em clubes minúsculos como o Sin-é, onde ele passou de lavador de pratos a músico residente.
Em 1991, aconteceu em Nova York um show em tributo a Tim Buckley. Na plateia estavam artistas famosos como Lou Reed e Laurie Anderson, além de boa parte da crítica musical da cidade. Jeff foi convidado a se apresentar e, acompanhado pelo guitarrista Gary Lucas, um notável instrumentista que havia tocado com Captain Beefheart, John Cale e Nick Cave (e depois faria shows improvisando ao vivo em cima de filmes de Zé do Caixão), cantou quatro músicas do pai: “I Never Asked to Be Your Mountain”, “Sefronia (The Kings Chain)”, “Phantasmagoria in Two” e “Once I Was”. “As pessoas ficaram boquiabertas”, diz no filme a então namorada de Jeff, a atriz Rebecca Moore, “Ele saiu de lá com 60 cartões de agentes e gravadoras no bolso”.
A notícia sobre o aparecimento repentino de um filho de Tim Buckley que ninguém conhecia e que havia herdado todo o talento musical do pai e mais um pouco, fez com que multidões tomassem o pequeno espaço do Sin-é e se espalhassem pelas calçadas. Jeff foi cortejado pelas maiores gravadoras e, em poucas semanas, havia assinado um contrato com a Columbia. “Entrei na sede da gravadora e a primeira coisa que vi foi uma foto de Bob Dylan”, diz Jeff numa entrevista de arquivo no filme. “Do lado de Dylan estava Miles Davis. Pensei: é aqui que quero estar!”
O resultado foi “Grace” (1994), um dos melhores discos dos anos 1990 e que anunciava a chegada de um artista que muitos consideraram um fenômeno. O disco recebeu ótimas críticas, mas não foi o estouro de vendas que a Columbia esperava. Mas um acontecimento trágico tornaria Jeff Buckley um mito: em fevereiro de 1997, durante as gravações de seu segundo disco, ele pulou nas águas de um canal do Rio Mississippi, foi tragado por uma onda formada pela passagem de um barco e desapareceu na correnteza. Seu corpo foi encontrado uma semana depois. Jeff Buckley tinha 30 anos.
O filme captura bem esse frenesi pós-morte em torno da figura de Buckley e de como “Grace” virou um álbum icônico. Bob Dylan elogiou as composições e Jimmy Page disse que era seu disco favorito da década, sentimento ecoado por David Bowie. Morrissey, uma das maiores influências de Buckley, disse que “Grace” era um de seus álbuns favoritos de todos os tempos. No filme, amigos, amigas e colaboradores contam como nunca se recuperaram daquela perda tão repentina. E as cenas de arquivo de shows e gravações em estúdio nos lembram do artista extraordinário que foi Jeff Buckley.
IT´S NEVER OVER, JEFF BUCKLEY
- Avaliação Bom
- Classificação Livre
- Elenco Jeff Buckley, Mary Guibert e Ben Harper
- Direção Amy Berg
Fonte: FolhaPress
