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Fuga de Flávio precipita ascensão de Tarcísio, e direita aposta em nomes do Senado para liderar oposição

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL), nesta terça-feira (27), após a derrota para o presidente Lula (PT), deve antecipar a liderança nacional do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e levar ao enfraquecimento do clã Bolsonaro, segundo integrantes da direita.
Quando questionados a respeito da fuga, políticos bolsonaristas disseram sob reserva que o sentimento majoritário no grupo, mesmo entre os considerados mais moderados, era de compreensão com a decisão de Flávio de deixar o Brasil pelo que veem como “perseguição” à direita.
Após Flávio divulgar uma carta golpista nesta quarta-feira (28), partidos e políticos se distanciaram mais do senador, reiterando o resultado das urnas —foi o caso de Tarcísio e de Rogério Marinho (PL-RN), que endossaram ainda assim o sentimento de injustiça de Flávio.
Alguns deputados do PL, como Gustavo Gayer (PL-GO), por outro lado, compartilharam o documento.
Congressistas afirmam que o senador não terá condições práticas ou até morais de se tornar um líder morando nos Estados Unidos e que o vácuo de poder será natural e gradualmente ocupado por Tarcísio.
Após a carta golpista, o governador declarou que entende o sentimento de indignação e revolta de Flávio, mas que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”. Na tarde de segunda, Flávio foi aconselhado pelo governador e pela cúpula da campanha a desistir de contestar o resultado das urnas.
Nessa reunião, que teve também a presença de Marinho e de advogados, o grupo buscou convencer Flávio de que o discurso inflamado não era um bom caminho, e que o questionamento da eleição poderia passar pelo uso da máquina por Lula, mas não pela votação em si.
Depois da fuga de Flávio, na terça, Tarcísio também já tinha se pronunciado em vídeo —com fala lida por alguns políticos como uma forma de preencher o espaço deixado por Flávio e como uma espécie de crítica. O governador começou, por exemplo, agradecendo a cada um dos quase 60 milhões de eleitores que votaram em Flávio.
Integrantes do PL afirmam que, mesmo no exterior, Flávio terá influência sobre a oposição, mas admitem que os embates diários vão exigir nomes que possam orientar o grupo estando no país, principalmente no Congresso.
Nesse contexto, são mencionados senadores como o próprio Marinho, Michelle Bolsonaro (PL-DF) e Tereza Cristina (PP-MS). Por isso, a fuga de Flávio também aumentou a pressão principalmente no PL sobre a presidência do Senado.
Parlamentares e governadores bolsonaristas dizem ser fundamental eleger o próximo presidente da Casa para conseguir organizar a direita e fazer frente ao presidente Lula e ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Eles argumentam que, mesmo que Tarcísio se consolide como o principal candidato da direita para 2030, só com a Presidência do Senado será possível fazer um contraponto em Brasília e implementar a agenda deste campo.
A ideia inicial era que Flávio unificasse os papéis de líder nacional e de articulador da direita no Congresso.
Na véspera da fuga, ele foi aconselhado a abandonar o tom golpista de domingo (25), aceitar o resultado da eleição e assumir essa liderança da oposição no Brasil. Segundo relatos, aliados ressaltaram a Flávio que ele superou o próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em número de votos, o que não era trivial.
Mas Flávio decidiu fugir para os Estados Unidos e divulgou uma carta golpista em que se autoproclamava “verdadeiro presidente do Brasil”. A versão original foi alterada cerca de uma hora depois, quando o trecho de “presidente” foi mudado para “líder do Brasil”.
Apesar da frustração do plano de que Flávio ficasse no país para organizar a direita, o senador tem sido tratado por correligionários como um perseguido político, e não como covarde ou fugitivo.
Os bolsonaristas no Brasil dizem que, se até uma pessoa que saiu das urnas com quase 60 milhões de votos, como Flávio, continua sendo alvo de Alexandre de Moraes, não haverá qualquer sinal de conciliação por parte do STF ou de Lula.
Foi o caso de Marinho, que coordenou a campanha de Flávio. “Nós evidentemente não fomos informados [da fuga], mas até compreendo”, afirmou antes da chegada de Flávio a Miami.
Para o congressista, a atuação de Moraes indica perseguição. “Numa democracia é muito estranho que um candidato à Presidência da República, após a proclamação do resultado, seja objeto de medida cautelar”, comentou.
Depois da carta golpista, porém, Marinho reiterou que não houve fraude nas eleições. “Suponho que seja desabafo de alguém que está se sentindo injustiçado”, disse.
O senador e governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), disse que “no contexto, Flávio deixar o país é compreensível”. “Em que tipo de país o candidato da oposição à Presidência, que teve 59 milhões de votos, tem o seu passaporte apreendido no dia seguinte à eleição? O Brasil segue longe da normalidade institucional”, afirmou.
Um senador eleito da direita afirmou que a decisão de tomar o passaporte de Flávio logo após sua derrota é algo típico de ditaduras.
Como mostrou a Folha, integrantes da cúpula da campanha do Flávio negaram terem sido informados por ele da fuga e, inclusive, demonstraram desconforto com a situação nos bastidores.
Um deles foi o próprio Tarcísio. Segundo aliados, o governador não tinha informações do paradeiro e ficou irritado com a mudança de postura do senador, que horas antes havia ouvido os conselhos de moderação dele e de auxiliares próximos. Em reação, Tarcísio divulgou vídeo em suas redes sociais em que se posiciona como líder da direita e cobra responsabilidade com a votação recebida pela oposição.
Depois de lembrar o tamanho da votação do aliado, emenda: “A direita brasileira recebeu das urnas uma responsabilidade. Recebeu força no Congresso e nos estados”.
“Agora é hora de unidade, de uma oposição vigilante que cobre responsabilidade fiscal, que propõe aquilo que melhora a vida das pessoas e que fiscalize de perto quem governa pelos próximos quatro anos”, disse ainda, repetindo seis vezes que a eleição passou.
Ainda na tarde de segunda, Flávio tinha divulgado um vídeo no tom pedido pelos aliados, reconhecendo tacitamente a derrota e se colocando como líder da oposição. No mesmo vídeo, ele diz que vai entregar os passaportes. “Nunca pensei em sair do país”, afirma. Em seguida, deixou o país, surpreendendo esses aliados que o haviam aconselhado de forma contrária.
“Eu vou reunir os deputados e senadores eleitos pra organizar a nossa estratégia e fazer da Câmara e do Senado a nossa fortaleza contra a barbárie que já tá desenhada. […] Não vamos desistir do nosso Brasil”, disse.

Fonte: FolhaPress

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