No Mundo
Quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Zelenski aceita congelar front, e Putin negocia com os EUA

Enquanto o presidente Vladimir Putin negociava os rumos da Guerra da Ucrânia com o enviado de Donald Trump em São Petersburgo nesta quarta-feira (21), seu rival Volodimir Zelenski afirmou a uma TV dos EUA que um acordo de paz pode ser negociado com o congelamento imediato das linhas de frente no seu país.
Questionado se toparia parar a guerra onde ela está por um repórter da Fox News, o ucraniano disse: “Sim. Se tivermos que congelar tudo agora, acho que essa é a verdadeira maneira de acabar com esta guerra”.
Segundo o monitor ucraniano DeepState, Putin hoje ocupa 19,4% da Ucrânia, incluindo aí os 7,3% que detinha da Crimeia anexada em 2014 e dos territórios controlados por separatistas pró-Rússia desde aquele ano, quando o governo aliado do Kremlin foi derrubado em Kiev.
A coreografia diplomática do dia foi empregada em um dos piores momentos de Zelenski na guerra iniciada por Putin em 2022. Há duas semanas, Trump adotou novamente uma política favorável a Moscou para tentar solucionar o conflito.
Fechou um acordo para comprar diesel russo, de olho no efeito da inflação de combustíveis devido à sua guerra no Irã nas chances de manter o controle do Congresso no pleito de novembro, e suspendeu um pacote de sanções contra Moscou.
Tornou intermitente o compartilhamento de informação sobre lançamentos balísticos contra a Ucrânia e a cobertura de satélite militar para as forças de Zelenski, problemas em tese resolvidos agora.
A autoria do corte na rede Starshield ainda é um mistério: o dono do serviço, Elon Musk, diz que os militares americanos são os operadores. Já a Casa Branca negou ter feito o corte, e o Wall Street Journal publicou reportagem culpando Musk pela ação.
Seja com for, o recado foi dado, até porque Trump foi ainda mais explícito: nos últimos dias, pediu a realização de eleições e a saída de Zelenski, irritado com a manutenção dos disruptivos ataques com drones a refinarias russas. Os parceiros europeus de Kiev assistiram a tudo com um misto de horror e impotência.
Apesar de satisfeitos, os russos sabem que este é o modus operandi negocial de Trump, desenhado no livro “A Arte do Negócio” (1987), então querem aproveitar o momento de pressão antes que o americano resolva aliviar a situação de Zelenski e virar-se contra Putin, como já fez em outras ocasiões.
Assim, ganham tempo sinalizando disposição para conversas que observadores na Rússia temem escamotear o fato de que Putin acredita em vitória militar contra o vizinho.
Administrando o tempo, Putin fez um gesto de boa vontade a Steve Witkoff, o negociador americano com quem se encontrou pela nona vez nesta quarta.
Soltou, a pedido de Trump e sem a reciprocidade de praxe, o americano Stephen Hubbard, 74, o último americano detido na Rússia por motivos que o Departamento de Estado considera injustificados. Professor de inglês aposentado, o idoso morava em Izium (Ucrânia) quando foi capturado pelas forças invasoras russas em 2022.
Acusado de ser um mercenário, algo que dizia ser fabricado, ele foi condenado em 2024 a seis anos e dez meses de cadeia, que cumpria em uma colônia penal. Ele foi levado para São Petersburgo e entregue aos americanos.
No início da reunião de três horas com Putin, Witkoff abusou de mesuras, chamando o líder russo de “um humanitário”. No segmento aberto do encontro, o presidente falou em parceria econômica com os EUA, enquanto o negociador relatou “avanços” na conversa que tivera na véspera em Oslo com Zelenski.
Participou, por vídeo e alegando problemas de saúde para não viajar, Jared Kushner, o genro de Trump que funciona como embaixador informal dos negócios do sogro –o que já abriu várias frentes na própria Rússia.
Witkoff também pediu a retomada imediata de conversas entre EUA, Rússia e Ucrânia, que estão estagnadas desde o começo do ano, quando Trump voltou sua atenção para o Oriente Médio.
Há a expectativa de que algum avanço possa ocorrer no mês que vem, durante o encontro da associação dos países da Ásia-Pacífico na China. Está sendo costurado um encontro de cúpula entre Trump, Xi Jinping e Putin, algo que críticos do russo veem apenas como uma legitimação de sua posição no conflito.
Logo depois de receber Witkoff, o líder do Kremlin reuniu-se com o premiê chinês, Li Qiang. A imprensa russa só citou a possibilidade da costura de uma reunião entre Putin e Xi na pauta da conversa.

Fonte: FolhaPress