
A nova guinada de Donald Trump em favor de Vladimir Putin e a crise política na Europa estão alimentando em Moscou um sentimento de vitória estratégica não só sobre a Ucrânia, mas sobre o Ocidente.
Segundo a reportagem ouviu de pessoas ligadas ao Kremlin nesta terça-feira (20), a percepção é temperada pelas lições de 2025, quando a volta do republicano à Casa Branca e a mudança de orientação em relação à guerra empolgaram alguns membros do governo.
Se de fato Trump é muito mais simpático a Putin do que a Volodimir Zelenski, que o russo não acelerou o fim do conflito apesar de o americano ter retirado apoio direto a Kiev e o recebido com pompas no Alasca frustrou Washington.
Isso levou ao variável humor do presidente, ora criticando a Rússia e fornecendo material de defesa por meio de um esquema no qual quem paga a conta é a Europa, ora pedindo que Zelenski realize eleições congeladas pela lei marcial.
De duas semanas para cá, contudo, o pêndulo voltou de forma notável para o lado russo. Preocupado com o dano que a inflação de combustíveis iniciada por sua própria guerra no Irã fará ao Partido Republicano nas eleições de 3 de novembro, Trump procurou Putin.
Fechou um acordo de compra de diesel e suspendeu um pacote de sanções duras no setor energético, para horror da Europa. Passou a criticar abertamente Zelenski e pedir sua renúncia, além de alterar o apoio militar crucial que ainda dá aos ucranianos.
Desde a semana passada, há tanto apagões no envio de alertas antecipados de lançamentos balísticos russos para Kiev quanto falhas na cobertura do sistema de comunicação militar Starshield, o Starlink dos fardados, controlado pelos EUA.
A isso se somou, na segunda (19), a acusação de que os mísseis de interceptação para sistemas americanos Patriot, comprados por meio do sistema de aquisições europeu, não estão chegando a Kiev.
Nesta terça, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, confirmou que as armas “talvez não tenham sido enviadas”, mas descartou uma ação política deliberada. Ele falou ao telefone com Zelenski, que por sua vez irá encontrar-se em Oslo com o negociador de Trump Steve Witkoff.
O Kremlin sorriu. Seu porta-voz, Dmitri Peskov, diz que a Rússia espera “informações detalhadas” acerca das conversas entre o enviado da Casa Branca e o rival. Mas o clima é de indisfarçável satisfação, ainda mais com a crescente possibilidade de um encontro tripartite entre Putin, Trump e o chinês Xi Jinping.
A reunião pode ocorrer às margens de um evento do clube de países da Ásia-Pacífico, no mês que vem na China. Peskov também falou da renovada cooperação entre EUA e Rússia, e pediu avanços no tema do controle de armas nucleares, algo jogado no lixo por Trump.
Essa normalização político-econômica equivale a pedir a rendição da Ucrânia, diz Zelenski. Ele tem apoio dos membros europeus da aliança militar Otan, mas, na prática eles não têm como suprir os recursos militares americanos sem que Washington queira.
Os megaprotestos de viés esquerdista na França, que já se espalham por países como a Itália, têm em sua raiz questões econômicas decorrentes entre outras coisas do alto preço da energia sem o gás e o petróleo baratos que a Rússia fornecia antes das sanções de 2022, após invadir o vizinho.
Mais importante, a agitação de um lado reforça a retórica mais dura da ultradireita, que vem ganhando musculatura eleitoral em países como a Alemanha e a própria França, onde Marine Le Pen lidera pesquisas para substituir o antirrusso Emmanuel Macron como presidente em 2027.
A mídia estatal russa martela o tema em noticiários. O negociador de Putin Kirill Dmitriev escreveu no X sobre “a queda suicida da Europa” e, antecipando o que disse depois Trump, culpou as políticas de imigração pela crise, alinhado ao populismo americano e continental.
Diferentemente do campo de batalha, onde mesmo que abocanhe os pouco mais de 20% da Ucrânia que deseja sempre será difícil falar em vitória militar após as perdas em quatro anos e meio de combates que deveriam durar três dias, esse triunfo político é mais tangível para Putin.
Desde 2007, o presidente russo está em choque crescente com o Ocidente. Agora, vê uma divisão de cima a baixo, com Trump às turras com seus antigos parceiros. Ressalvando que o americano já deu meia-volta para auferir ganhos negociais antes, a trinca na relação EUA-Europa é vista como permanente no Kremlin.
Na base, os protestos sinalizam uma mudança de espírito que pode ser mais ampla. Em um dos países mais avessos à Rússia no Leste Europeu, a Polônia, a rivalidade histórica com a Ucrânia e a questão dos refugiados derrubaram o apoio a Kiev na guerra de 94% em 2022 para 29% neste ano, segundo o centro CBOS.
Mesmo no campo de batalha, Putin tem feito avanços, apesar de ser pressionado pelos ataques ucranianos a suas refinarias. Além da campanha aérea com defesas degradadas, está pressionando o flanco sul dos 10% a 15% ainda em mãos de Kiev de Donetsk, região que é seu maior objetivo.
Fonte: FolhaPress
