Política
Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Centrão faz acordo para votar mudança do sistema eleitoral em novembro, contra efeito Nikolas

Preocupados com o crescimento de partidos como o PL, um grupo de dez partidos do centrão fez um acordo para votar uma reforma política na primeira semana de novembro, antes da posse dos novos congressistas.
A intenção é diminuir a influência de puxadores de votos, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), e preservar a força dos partidos de centro no Congresso.
Ainda não há acordo entre os deputados do grupo, no entanto, sobre qual modelo será adotado, e uma reunião foi marcada para o dia 28 para decidir. Parte defende o distrital misto, em que metade dos eleitos é escolhido por regiões delimitadas, e outra metade, por uma lista indicada pelos partidos. Outra parte prefere o “distritão”, em que os mais votados são eleitos, independemente do número de votos de cada partido.
O atual modelo, da eleição proporcional de lista aberta para deputados e vereadores, faz com que candidatos muito bem votados puxem outros. O número de votos de todos os candidatos de cada partido ou federação são somados para definir quantas cadeiras cada partido eles terão no Legislativo.
A partir daí, as vagas são ocupadas pelos mais votados, desde que tenham no mínimo 10% do quociente eleitoral daquele estado. Esse modelo fez com que bolsonaristas ganhassem espaço em cima de candidatos do centrão. Nikolas e Pavanato foram eleitos com mais de três milhões de votos cada.
O mineiro garantiu, sozinho, mais 13 deputados do PL de Minas Gerais. Já o vereador paulista levou mais sete colegas na chegada à Câmara dos Deputados. Outros deputados do PL tiveram papel semelhante em estados pelo país.
Com isso, o PL terá a maior bancada desde 1990, com 121 deputados federais, um crescimento expressivo em relação aos 99 da eleição anterior. O centrão perdeu mais de 20 cadeiras. Só a federação entre União Brasil e PP, hoje o maior grupo desse bloco, cairá de 97 deputados federais para 87.
As agremiações saíram do primeiro turno com a percepção de que, sem uma reação, o grupo perderá ainda mais espaço nas próximas eleições, considerando que a política baseada em ocupação de cargos e distribuição de emendas parlamentares não se mostrou totalmente efetiva. O centrão quer se antecipar à posse dos novos eleitos para aprovar rapidamente uma mudança no sistema eleitoral.
A estratégia foi discutida nesta quarta-feira (14) em reunião na residência oficial do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Na ocasião, dez partidos divulgaram nota de apoio à reeleição dele para o comando da Casa, na qual afirmam que haverá atuação conjunta na próxima legislatura.
Motta afirmou que os partidos de centro precisam entender como sobreviver na “selva política” após onda de direita.
Participaram os líderes e presidentes do PSD, Republicanos, MDB e do Podemos e das federações União Brasil-PP, PSDB-Cidadania e PRD-Solidariedade. No encontro, além do conteúdo da nota, foi discutida a necessidade de uma reforma política, com apoio de todos esses partidos.
Na atual legislatura, eles somam 271 votos. Na próxima, cairão para 252, abaixo da maioria de 257 deputados.
O que dificulta um entendimento do grupo é qual será o modelo que substituirá o atual. O distritão, em que os mais votados são eleitos, independentemente do número de votos obtido por cada partido, costuma ser combatido por legendas com maior força, como o PT. Congressistas com votação menor, que dependem dos votos de outros para renovarem os mandatos, também se opõem.
O distritão também possui outro dificultador para ser aprovado: exige uma mudança constitucional. Para aprovar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), são necessários 308 dos 513 deputados.
A alteração foi tentada na gestão do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (então no MDB, hoje no Republicanos), mas rejeitada por 267 votos a 210 naquela época, em 2015.
Por isso, parte do grupo, como o PSD, prefere o modelo do distrital misto. Isso seria possível, segundo o centrão, com uma alteração por projeto de lei, e um texto já é negociado pelo deputado Domingos Neto (PSD-CE).
Nesse sistema, metade das cadeiras é preenchida pelos votos nos partidos em todo o estado, numa lista fechada (decidida pelo partido) ou aberta (com competição entre os candidatos, como hoje).
Outra parte das vagas é ocupada por eleição em cada distrito regional, por eleição majoritária (quem tiver a maioria dos votos é eleito). Defensores dizem que esse modelo aumenta o vínculo e cobrança dos eleitores com o deputado. Críticos rebatem que isso estimula currais eleitorais. Parte dos deputados do centrão está contra por entender que governadores terão muito peso nas eleições nesse modelo.
Os partidos do centrão vão tentar superar essas divergências até novembro e convencer parte das siglas de esquerda e centro-esquerda a endossarem a mudança, de olho nas próximas eleições. E antes da posse dos novos eleitos.

Fonte: FolhaPress