Cultura
Sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Espetáculo ‘Casa do Norte’ transforma mercearia em palco de afeto e comédia

A ideia inicial de Rager Luan para o espetáculo “Casa do Norte”, do Grupo Clariô de Teatro, era construir um cenário simples e fácil de ser transportado nas viagens da trupe. As pesquisas do cenógrafo, no entanto, levaram a criação para outro caminho.
O que o público encontra ao assistir a peça em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo, é uma alegoria colorida e cheia de detalhes, inspirada em estabelecimentos comerciais fundados por imigrantes nordestinos lugares que, além de vender comida e bebida típicas, servem como ponto de encontro.
Diversos utensílios, enfeites, prateleiras, uma jukebox, o retrato pendurado do cantor Reginaldo Rossi e uma caixa de correio comunitária ocupam o palco da mercearia fictícia que, à noite, se transforma no inferninho Fecha Nunca. O cenógrafo percorreu estabelecimentos populares do Brás, na região central da capital paulista, durante o processo de pesquisa.
A trama é contada a partir do desaparecimento misterioso da caixa de correspondências, fato que coloca todos os personagens sob suspeita. Durante a investigação, memórias e afetos surgem entre uma interrogação e outra, revelando os laços entre os frequentadores da Casa do Norte.
O espetáculo é o primeiro do Clariô a estrear fora da sede do grupo, em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo. É também a primeira comédia rasgada do coletivo teatral, criado em 2005 a partir de uma articulação entre teatro, cultura popular, ancestralidade e questões raciais.
Após um período de campanha intensa para manter o Espaço Clariô, ameaçado pela especulação imobiliária, os integrantes do grupo sentiram a necessidade de fazer graça, em uma montagem que reúne música brega e interação com a plateia, com direito a cantoria coletiva, distribuição de doses de cachaça e porções do doce quebra-queixo.
“Trabalhar com comédia, além de libertador, é um ato político. Ter o direito de rir é algo que não é tão fácil assim”, diz o ator e palhaço Washington Gabriel, um dos integrantes do elenco.
O riso apareceu como algo necessário para o grupo após duas décadas de convivência e um período dramático diante do risco de perder a sede.
“Vimos na possibilidade do exagero, do exacerbado, um jeito de gritarmos todas as demandas, todas as carências, mas também todas as abundâncias que tem um coletivo periférico”, diz Naruna Costa, uma das fundadoras do Clariô.
Há também um desejo de reparação histórica em torno de um gênero que aborda personagens periféricos, ainda raramente representados por pessoas pretas e moradoras das periferias. “Não estamos estereotipando o que a gente vive, estamos exaltando o que somos”, afirma a atriz.
Os atores se divertem no palco com a dramaturgia criada por Jhonny Salaberg para comemorar os 20 anos do grupo e, ao mesmo tempo, celebrar a origem nordestina de todos. A direção é de Naruna, que também atua na montagem.
“Falamos dos imigrantes, mas também de territórios, de pertencimento. O nosso espaço está ameaçado, assim como muitos”, afirma a atriz Martinha Soares, outra integrante do Clariô.
O espetáculo menciona a destruição dos teatros Ventoforte e Contêiner Munguzá, em São Paulo, e a luta da Brava Companhia para manter seu espaço na Vila Prel, zona sul de São Paulo, em uma reflexão sobre as ameaças enfrentadas por espaços culturais independentes e projetos comunitários da cidade.
Como polo de cultura periférica aberto à comunidade de Taboão, o Espaço Clariô abriga eventos como saraus, aulas de capoeira, ensaios e apresentações artísticas de outros grupos. Nos períodos de enchentes que afetam a região, o lugar também é usado como centro de distribuição de doações.
Espetáculos como “Hospital da Gente”, “Urubu Come Carniça e Voa!”, “Severina – Da Morte à Vida” e “Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto” receberam prêmios como o Aplauso Brasil, o APCA e o Shell, além de darem visibilidade ao Clariô e levarem uma parte do público tradicional a “atravessar a ponte” para assistir a peças em Taboão da Serra. A dramaturgia e o cenário de “Casa do Norte” fazem referência a essas obras marcantes.
Em agosto, Naruna ganhou o Kikito de atriz coadjuvante no Festival de Gramado pela atuação no filme “Pele de Rinoceronte”, que aborda a violência contra as mulheres. No discurso de agradecimento, ela disse que o prêmio é uma vingança pelas mulheres assassinadas no Brasil, fez uma homenagem a atrizes negras como Ruth de Souza e Léa Garcia e disse esperar que outras cheguem ao palco da festa.
Também presente em novelas e séries, a atriz e os demais integrantes do Clariô lidam com o desafio de conciliar os compromissos profissionais com a sobrevivência do trabalho coletivo. A trupe tem um acordo que garante ao menos um encontro semanal, nas terças-feiras à noite, no espaço em Taboão da Serra. É a partir dessas conversas que os artistas decidem os próximos passos e seguem em frente.
CASA DO NORTE

  • Quando Qui. a sáb., às 20h; dom., às 18h. Até 1º de novembro
  • Onde Sesc Consolação – r. Dr. Vila Nova, 245, São Paulo
  • Preço R$ 70
  • Autoria Johnny Salaberg
  • Elenco Naruna Costa, Alexandre Souza, Cleydson Catarina
  • Direção Naruna Costa

Fonte: FolhaPress