
Existe um momento muito especial em “Hope – O Primeiro Impacto”. São dois planos apenas o do policial que, dentro de um carro, tenta matar o monstro que está fora do carro e o persegue. Por um instante, os olhos desse ser surgem e o rosto do policial se transforma; é como se eles estabelecessem contato. O policial não consegue usar sua arma ao reconhecer naquilo alguém como ele.
Voltemos um pouco: esse ser surge, bem antes de ser visto por nós, atacando o porto Hope, no norte da Coreia do Sul, destruindo construções, matando pessoas, estripando animais. A carnificina que promove, assim como os traços que deixa em sua passagem, além da proximidade do mar, fazem pensar em um novo Godzilla.
Mas os dados que o filme libera levam a pensar em outra coisa. Avisos previnem contra infiltrações, avisam sobre o perigo de espiões. Obviamente, isso se refere à Coreia do Norte, que fica logo acima, no filme. Isso nos permite ligar o monstro ao perigo de uma invasão dos comunistas de Kim Jong-un com sua bomba atômica e tudo mais.
Isso pode até dar sentido ao filme, mas não ajuda em nada à aventura. Lá está Bum-seok papel de Jung-Min Hwang, um policial meio burlesco, caçando corajosamente o bicho aniquilador. Por sorte, ele recebe a ajuda da policial Sung-ae interpretada por Jung Ho-yeon, bem mais atilada. É da ação dela que resulta a perseguição referida logo acima.
O monstro não facilitará a vida de ninguém. Como sempre no gênero, na primeira meia-hora só vemos o efeito de sua presença. Mas como ele é? O espectador se faz essa pergunta; é a lei do gênero.
O que surge é algo com três ou quatro metros de altura. Carrega uma feiura que deriva, em parte, do fato de ser um espécime desconhecido. Mas nem tanto. Tem a viscosidade característica de certos monstros cronenberguianos, por exemplo. Possui uma agilidade e força que o torna quase invulnerável. E tem essa característica especial não é tão diferente assim dos humanos. Só que parecem super-homens, ou talvez meio homens, meio bichos, repugnantes.
Enfim, com esse monstro, entramos no reinado do terror. Não deixamos, porém, o reino da imbecilidade que marca a pequena cidade. Os idiotas parecem estar em toda parte por lá. E, como boa parte desses idiotas também são caçadores, quase todos os sobreviventes se dispõem a perseguir a figura.
Temos, de cara, uma soma de gêneros a comédia, o policial, o terror, o suspense. Breve a esses se juntará a ficção científica, quando soubermos que não há um monstro, mas vários. Quando descobrirmos a nave oval em que estão instalados, entre outras, reproduzindo-se. E que contê-los será uma missão tão sobre-humana quanto esses invasores ETs que se instalaram na floresta onde o pessoal costuma caçar.
Se acrescentarmos a isso que a ação se passa antes da existência do telefone celular, o que logo torna as comunicações impossíveis, temos em “Hope” um filme bem ao estilo de certa tendência do cinema coreano, em que a hipérbole é a única figura de linguagem que se impõe.
Impossível contorná-la. Os gritos, os sentimentos, a coragem, a covardia, a inteligência, a falta dela, as perseguições, os atos dos monstros, tudo é excessivo, transbordante.
Há uma formidável perseguição em que há quatro pessoas dentro de um carro de polícia guiado pelo bobão do pedaço, um homem fugindo a cavalo e um monstro irado.
Na cena do início, em que o monstro e o policial Bum-seok se encontram, este percebe que ele chora. É isso que leva o policial a hesitar quando devia atirar. Essa figura, por assustadora que seja, tem uma semelhança terrível conosco: tem sentimentos. Ele quer nos eliminar, assim como nós queremos nos ver livres dele, tudo bem. Apesar de tudo, algo o torna idêntico a nós.
Essa lágrima também será percebida pela legista meio pirada que faz a autópsia do primeiro ET capturado. E, no final, os seres que vemos e que podem voltar no futuro, em um “Hope 2” também têm expressões de dor, estima, medo, solidariedade. Quando se veem sozinhos, longe dos humanos, se permitem ser tão humanos quanto nós.
A visão que Na Hong-jin, diretor e também roteirista de “Hope”, desenvolve é peculiar, porque termina por promover uma estranha simbiose entre os terrestres e os extraterrestres.
Poderia Hong-jin estar pensando nos comunistas logo ali depois da fronteira, como sugere no início. Mas seus ETs são atores ocidentais, como o alemão Michael Fassbender e a sueca Alicia Vikander, o que talvez indique a dificuldade de assimilação entre as metades ocidental e oriental do planeta.
O espectador brasileiro talvez se espante um pouco com a duração da película, tão hiperbólica quanto a ação do filme duas horas e 40 minutos. Mas, pensando bem, não é demais para um filme em que uma situação engendra outra e desta surgem mais duas.
Talvez se espante menos, em todo caso, do que a plateia do Festival de Cannes deste ano, com este filme tão distante do habitual nesse tipo de celebração cinematográfica. Sim, “Hope” é um filme popular, que parece herdar um pouco de várias tradições já mencionadas. Sem falar do filme de artes marciais em que os ETs são craques e do faroeste italiano pela profusão de tiros.
HOPE O PRIMEIRO IMPACTO
- Avaliação Bom
- Onde Nos cinemas
- Classificação 16 anos
- Elenco Jung-Min Hwang, In-sung Zo, Jung Ho-Yeon
- Produção Coreia do Sul, 2026
- Direção Na Hong-jin
Fonte: FolhaPress
