
Setores que enfrentam dificuldade para encontrar funcionários, como o de supermercados, têm investido em cursos práticos de treinamento e qualificação para contratar pessoas sem experiência e prepará-las para o trabalho.
Os supermercados paulistas têm cerca de 35 mil vagas abertas para funções como operador de caixa, padeiro, estoquista, repositor e açougueiro. A estratégia de qualificação ganhou espaço na Escola Apas, da Associação Paulista de Supermercados, que oferece cursos para diferentes funções do varejo. Em um ano, 759 profissionais passaram pelos treinamentos. A projeção para 2026 é capacitar 661 pessoas, alta de 46% em relação ao período anterior.
A proporção de brasileiros com algum tipo de trabalho, chamado de nível de ocupação, aumentou no trimestre encerrado em julho, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados nesta quinta-feira (27), o que pode contribuir para aumentar a dificuldade de recrutamento em empresas. Esse indicador mede o percentual da população com 14 anos ou mais que está trabalhando.
Os cursos levam os funcionários para frigoríficos, fazendas, padarias e indústrias para mostrar como os produtos chegam às lojas. A ideia é aproximar quem trabalha no supermercado das etapas de produção, armazenamento e comercialização dos alimentos, segundo a Apas.
“Antigamente, nós tínhamos o desafio da capacitação. Hoje, o nosso desafio é achar a mão de obra para ser capacitada”, afirma Erlon Ortega, presidente da Apas.
A escola também passou a levar os alunos para ambientes ligados diretamente à produção, como frigoríficos, fazendas e indústrias de panificação. A ideia é que o trabalhador conheça as etapas pelas quais o produto passa antes de chegar à loja.
No caso do açougue, por exemplo, a formação aborda cortes, manipulação e atendimento ao consumidor. Nos cursos relacionados a frios e hortifrúti, entram temas como armazenamento, exposição, controle de qualidade e organização dos produtos. A proposta é aproximar o treinamento da rotina encontrada no supermercado.
Entre as capacitações oferecidas, o curso “Açougueiro de Valor” foi o mais procurado, com 297 participantes. “Mestre Fatiador” teve 241 alunos, enquanto “FLV em Foco”, voltado a frutas, legumes e verduras, reuniu 120.
A formação também é usada pelas empresas como estratégia para contratar pessoas sem experiência e prepará-las para assumir as funções. É o caso do Supermercado Correia, rede familiar do interior de São Paulo. Segundo um dos sócios, Sebastião Atadaine, a empresa envia funcionários para diferentes cursos da Apas, principalmente os mais novos e aqueles que estão sendo preparados para uma promoção.
“Não vejo isso como despesa. A nossa empresa vê isso como investimento”, diz Atadaine. Para ele, em um cenário de dificuldade para encontrar profissionais qualificados, a alternativa é contratar e desenvolver os trabalhadores dentro da própria empresa.
A trajetória de Wilsom Carlos, 19, mostra como esse caminho pode funcionar. Ele começou como jovem aprendiz em um supermercado da zona leste de São Paulo, em 2023, como repositor. Ao acompanhar o trabalho dos açougueiros, interessou-se pela área e decidiu se especializar.
Depois, fez o curso de açougueiro da Escola Apas. “Foi um curso de abrir a minha mente, não só de entender o cliente, mas também de muitas coisas, cortes, muitas coisas”, afirma.
Hoje, ele trabalha como açougueiro e diz que o treinamento mudou a forma como encara o atendimento. Em vez de apenas entregar o corte pedido, afirma procurar entender para que o cliente pretende usar a carne e, a partir disso, sugerir uma opção.
A experiência também é apontada pela Apas como uma forma de desenvolver habilidades que vão além da função exercida. Sandra Benvenuti, gestora da Escola Apas, diz que o treinamento passou a ser tratado pelas empresas como ferramenta de atração e retenção de funcionários.
“Cada vez mais treinamento, desenvolvimento, investimento no desenvolvimento dos profissionais é um fator extremamente importante para atração e retenção de pessoas”, afirma.
Para Ortega, a escassez de trabalhadores tem relação também com mudanças nas expectativas dos mais jovens. Segundo ele, cerca de um terço dos funcionários do setor tem até 25 anos, grupo que, na avaliação da associação, busca maior flexibilidade na jornada.
A associação também vê potencial na contratação de trabalhadores mais velhos. Ortega afirma que mais de 10% dos empregados do setor já tem 50 anos ou mais. A maior longevidade da população e a dificuldade de contratação de jovens ajudam a explicar esse movimento.
O QUE OS CURSOS ENSINAM
A capacitação prática, segundo a Apas, aborda diferentes etapas da operação, como armazenagem, logística, exposição de produtos, controle de perdas e atendimento.
Mayra Índia Rocha Cruz, 35, trabalha há oito meses como atendente de frios em um supermercado de São Paulo e fez o curso de “Mestre Fatiador”. Segundo ela, o treinamento ensinou técnicas de fatiamento, exposição e conservação, além de informações sobre os produtos.
“Quando o cliente chegar e perguntar qual é a diferença de um para outro, a gente pode saber responder”, diz.
Depois do curso, o supermercado divulgou nas redes sociais que havia funcionários certificados como mestres fatiadores. Segundo Mayra, alguns clientes passaram a procurá-la especificamente pela técnica aprendida na capacitação.
Para Sandra, esse efeito ultrapassa a relação entre funcionário e empresa. Um profissional que conhece melhor os produtos pode, por exemplo, orientar um consumidor sobre o corte de carne mais adequado para determinada receita ou sugerir combinações de alimentos.
“Existe uma cadeia muito maior do que só treinar colaborador”, afirma.
A Apas também sustenta que a formação pode contribuir para reduzir a rotatividade, aumentar a produtividade e melhorar o atendimento. Os resultados, porém, dependem de outros fatores da operação, e a associação afirma acompanhar indicadores como turnover e número de vagas para avaliar o impacto dos treinamentos.
A dificuldade de contratação ocorre em um setor altamente pulverizado. Segundo Ortega, enquanto países como Chile, Argentina e França concentram metade do mercado em poucas redes, no Brasil seriam necessárias mais de mil empresas para alcançar participação semelhante.
Nesse cenário, a associação diz que ganhos de produtividade podem se transformar em vantagem competitiva para os supermercados e, pela concorrência, chegar ao consumidor na forma de preços menores.
Fonte: FolhaPress
