
Joice Freitas Oliveira, 24, conseguiu um emprego com exigência de ensino superior após concluir a graduação em relações internacionais em 2024. Atua como correspondente bancária e diz aproveitar parte do aprendizado da faculdade.
Segundo a moradora do Grajaú, zona sul de São Paulo, o cargo gerou ganho de qualidade de vida e aumento salarial em relação ao trabalho anterior, que exigia somente ensino médio. Ela agora espera adquirir experiência para seguir crescendo profissionalmente.
“Moro em uma região mais periférica e, quando transito aqui, percebo que dei um passo à frente de basicamente todo mundo ao redor”, afirma a jovem, que estudou com bolsa em universidade privada.
“Ao mesmo tempo, quando a gente conversa com pessoas que têm um pouco mais de condições, parece que ainda está bem longe.”
Trabalhadores graduados, caso de Joice, vêm em trajetória de crescimento no Brasil. De 2012 para 2025, um intervalo de 13 anos, o grupo mais que dobrou, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
As informações mostram que os profissionais com ensino superior completo ainda se destacam por ter uma renda média maior que a mão de obra com menos estudo.
O rendimento médio dos graduados, contudo, segue abaixo do recorde da série histórica, registrado em 2014.
As conclusões são de um módulo da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) divulgado pelo IBGE em 8 de maio. O levantamento traz resultados desde 2012.
A população ocupada com renda do trabalho e com ensino superior cresceu 103,3% ao longo da série. O grupo saltou de 12,6 milhões em 2012 para 25,5 milhões em 2025, novo recorde da pesquisa.
Em termos absolutos, o aumento em 13 anos foi de quase 13 milhões. É mais que a população inteira da cidade de São Paulo (11,9 milhões).
Proporcionalmente, o crescimento dos trabalhadores com ensino superior ficou bem acima do registrado pelo total de ocupados. O total de profissionais subiu 17,8% no intervalo de 2012 a 2025, ao sair de 86,3 milhões para 101,6 milhões.
Já a renda média habitualmente recebida pelos ocupados com ensino superior em todos os trabalhos foi de R$ 6.947 por mês em 2025. O indicador ficou 13,4% abaixo do recorde de 2014 (R$ 8.023), embora tenha avançado 3,9% ante 2024 (R$ 6.688).
Trata-se de uma situação diferente da registrada pela população ocupada em termos gerais. No ano passado, o rendimento médio do total de trabalhadores renovou o recorde da série, ao chegar a R$ 3.560 por mês.
A Pnad não detalha por que a renda média dos graduados segue abaixo da máxima, mas, segundo economistas, uma das possíveis razões é justamente a ampliação da oferta de mão de obra qualificada.
Por essa lógica, mais profissionais com ensino superior podem ter entrado no mercado com salários iniciais, puxando a média para um patamar inferior ao da década passada.
“Houve expansão do número de pessoas com esse tipo de qualificação. Isso faz com que a oferta aumente e traz um impacto de redução do que a gente chama de prêmio salarial do trabalho qualificado”, diz o economista Daniel Duque, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Em 2025, a renda média dos profissionais com ensino superior completo (R$ 6.947) foi 163,1% maior que a do grupo com nível médio completo (R$ 2.640).
Onze anos antes, em 2014, a diferença era ainda mais intensa, de 189,8%. Os valores estavam em R$ 8.023 para os graduados e em R$ 2.768 para os trabalhadores com ensino médio.
Na avaliação de Duque, é possível que as crises ocorridas na economia brasileira a partir de 2014 também tenham impactado a renda do grupo com mais estudo. O país amargou uma recessão aprofundada em 2015 e 2016 e a pandemia iniciada em 2020.
Segundo analistas, o crescimento do número de graduados reflete políticas de expansão do acesso a escolas e universidades, além do crescimento nos últimos anos da modalidade EAD (educação a distância).
Em 2025, o grupo com ensino superior completo representou 25,1% do total de trabalhadores ocupados. É o maior percentual da série iniciada em 2012, quando a proporção estava em 14,6%.
“Há uma diminuição do que a gente chama de prêmio educacional. Ou seja, o fato de a pessoa ter graduação acaba sendo menos valorizado do que era um tempo atrás”, diz o economista Ely José de Mattos, pesquisador do centro de estudos PUCRS Data Social.
“Mas esse prêmio continua sendo muito alto no Brasil, porque o volume de graduados ainda é relativamente pequeno se comparado a países mais desenvolvidos”, pondera.
Conforme Ely, também é possível que a renda média do grupo siga abaixo do recorde devido ao avanço de cursos que costumam render salários mais baixos do que outros de nível superior.
O pesquisador ainda afirma que a recuperação do mercado de trabalho nos últimos anos esteve bastante associada a profissionais da “base”. “Estou falando de trabalhadores de qualificação um pouco mais baixa.”
Três grupos tiveram recorde na renda média nos últimos dois anos, considerando os sete níveis de escolaridade investigados na Pnad.
Foram os casos dos ocupados sem instrução, em 2024, e daqueles com ensino fundamental incompleto e com médio incompleto, em 2025.
A série histórica leva em conta valores em termos reais ajustados pela inflação. A população ocupada com trabalho abrange pessoas de 14 anos ou mais.
Em nota, o analista do IBGE Gustavo Geaquinto disse que diversos elementos podem ter contribuído para a renda média dos profissionais graduados seguir abaixo do recorde.
Ele citou, por exemplo, possíveis variações de oferta e demanda por trabalho qualificado decorrentes de mudanças tecnológicas e de participação dos setores na economia.
Também afirmou que o grupo dos ocupadas com superior completo não é homogêneo, uma vez que possui formação em diferentes áreas do conhecimento.
Outra versão da Pnad, com dados trimestrais, mostra um cenário semelhante. No primeiro trimestre de 2026, a renda média habitualmente recebida em todos os trabalhos foi de R$ 7.236 para os ocupados com ensino superior, segundo o levantamento.
O valor está 11% abaixo do recorde, encontrado no terceiro trimestre de 2014 (R$ 8.128). Essa versão da Pnad foi publicada pelo IBGE no dia 14 de maio.
Fonte: FolhaPress