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Por que documentários e cinebiografias de músicos viraram filão da indústria

Ney Matogrosso decidiu abrir as portas de suas casas para as câmeras de um novo documentário dirigido por Esmir Filho. Na produção, o diretor busca mostrar quem é Ney Matogrosso hoje, às vésperas dos 85 anos quase como um contraponto íntimo à própria cinebiografia lançada no ano passado.
Se “Homem com H” mergulhava na construção do personagem explosivo e performático que marcou a música brasileira, “Ney por Trás das Máscaras” ainda sem data de lançamento tenta se aproximar de um artista sem palco e, nas palavras do diretor, menos mascarado. “O que faz alguém interessante são justamente as contradições.”
Este é o centro de uma discussão que atravessa o atual boom de documentários e biografias de músicos. Nunca houve tantas produções do gênero nem tanta demanda do público por estes bastidores. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que muitos desses filmes parecem muito controlados e semelhantes entre si.
No fim de março, a Netflix e a Warner Music assinaram um contrato exclusivo de vários anos para produzir séries e filmes documentais que explorem artistas consagrados da gravadora.
“Ao mesmo tempo, a Warner ganha um canal de distribuição estratégico na principal plataforma de streaming do mercado, o que torna a parceria vantajosa para ambos os lados”, diz Chris Watling, fundador da produtora britânica Baby Teeth, que trata de aproximar marcas e o mundo do entretenimento.
A Paramount não ficou para trás e firmou um contrato semelhante com a Warner, mas para a produção de cinebiografias títulos de ficção inspirados nas histórias reais dos músicos.
Apesar de os detalhes de como as parcerias vão funcionar não estarem claros, uma coisa é certa os acordos presenteiam os estúdios com personagens populares como David Bowie, Fleetwood Mac, Madonna, Charli XCX, Dua Lipa e outros. Tudo isso numa indústria que cada vez mais prefere apostar em “IPs”, as chamadas propriedades intelectuais, já conhecidas do público.
Documentários musicais não são uma novidade. Muito antes da explosão recente do gênero, turnês e bastidores já eram registrados pelas câmeras dos filmes-concerto dos anos 1970 e 1980 aos especiais televisivos que ajudaram a consolidar a imagem pública de estrelas do rock e do pop.
Mas algo mudou depois da pandemia. Impulsionados pelo sucesso de “Bohemian Rhapsody” cinebiografia do Queen que rendeu US$ 911 milhões e venceu quatro estatuetas do Oscar, estúdios passaram a priorizar histórias de músicos em sua cadeia de produção.
Segundo um levantamento feito com dados do IMDb, principal base sobre cinema na internet, o documentário deixou de ser um dos gêneros menos populares antes dos anos 2000 e, na virada do milênio, foi impulsionado para um dos mais populares, junto ao terror e ao thriller.
Em paralelo, Apple TV e Disney+ já investem em grandes produções de artistas do mundo da música, como “Histórias de Surrender”, sobre Bono, do U2, e o álbum visual “Black Is King”, de Beyoncé.
A própria Netflix já reúne um bom catálogo, com “Miss Americana”, sobre Taylor Swift, “Quincy”, a respeito de Quincy Jones, e já lançou neste ano documentários do experiente percussionista Paulinho da Costa e de artistas da nova geração, como Noah Kahan.
Parte dessa transformação é econômica. Em meio às guerras do streaming, plataformas passaram a apostar em produções próprias e documentários são mais baratos e rápidos que ficções.
“A competição por atenção nunca foi tão alta, e está mais difícil do que nunca para um artista criar impacto em torno de um lançamento”, diz Watling. Nesse cenário, segundo o especialista, os filmes se tornaram uma ferramenta estratégica de marketing, capaz de atrair novos fãs, reposicionar artistas e impulsionar streams de catálogos antigos.
Mas o crescimento acelerado do gênero também trouxe uma espécie de fórmula narrativa o artista em crise, os bastidores da turnê, o trauma pessoal, a superação e a catarse final diante do público.
“Existe uma fórmula muito repetida”, diz o roteirista e produtor Ale Lucas, que trabalha numa série sobre Gilberto Gil para o Globoplay. “Você pega os principais fatos da vida daquela pessoa e simplesmente encadeia os acontecimentos. Mas isso não necessariamente revela quem ela é ou era.”
As diretoras Lo Politi e Dandara Ferreira, de “Meu Nome É Gal”, sobre Gal Costa, dizem que muitos também se perdem ao tentar “dar conta de tudo” na trajetória de um artista. “Cinema é recorte”, afirma Politi. “Você precisa entender qual é o recorte de tempo, mas também qual é o recorte emocional daquela pessoa.”
Toda narrativa biográfica, porém, precisa encontrar algum tipo de tensão capaz de organizar o filme, dizem os cineastas ouvidos pela reportagem. No caso de Ney Matogrosso, o cantor carrega uma tensão permanente entre liberdade e repressão, diz Esmir Filho.
“Sem conflito não tem filme. Em Gal Costa, esse conflito não era tão explícito. Tem uma coisa ali de uma menina que precisa vencer a timidez”, diz Ferreira. “Os conflitos dela eram muito internos e coisas internas são difíceis de mostrar externamente”, completa Politi.
A discussão ganha outra camada quando entram em cena famílias, gravadoras e direitos autorais.
O jornalista e biógrafo Tom Cardoso vê uma diferença estrutural entre livros e cinebiografias. Autor de obras sobre figuras como Cássia Eller, Chico Buarque e Caetano Veloso, ele lembra que, desde a decisão do Supremo Tribunal Federal em 2015, biografias literárias independem de autorização prévia.
No cinema, porém, a lógica é outra. “Para fazer um filme sobre um artista musical, você precisa das músicas. E, para usar as músicas, precisa negociar com a família ou com quem controla os direitos”, afirma. “A partir daí, muitos filmes acabam virando reféns dessa ingerência.”
Cardoso vê nesse mecanismo uma das razões para o crescimento de narrativas vistas como chapa branca, a exemplo de “Michael”, biografia de Michael Jackson que já é a segunda maior bilheteria de 2026, somando cerca de US$ 800 milhões pelo mundo. “Você tira as arestas, e sobra uma narrativa muito polida.”
Para Esmir Filho, contar uma história a partir do ponto de vista do biografado é “o melhor lugar para se estar”. Ele afirma que produções conduzidas por familiares passam mesmo por filtros e escolhas sobre o que será contado.
“Quando você controla totalmente a narrativa, a tentação é evitar tudo o que é desconfortável”, afirma. “Mas o público percebe”, diz Watling. Para ele, obras honestas exigem coragem para expor as vulnerabilidades e contradições das pessoas.
Foi o caso de “Rocketman”, de 2019, um contraponto nesta onda, que retratou Elton John como um sujeito ególatra, arrogante e cheio de vícios por boa parte da carreira apesar de ser produzido pelo próprio marido do astro britânico.
Watling acredita que, com o time certo de diretores e uma liberdade criativa vinda por parte de artistas ou de suas famílias, o resultado pode ser positivo e variado. “Há muitos artistas que são populares por serem reais e honestos, não perfeitos. A perfeição é o que deixa as pessoas desconfiadas”, diz Watling. “Os melhores filmes são aqueles que não poderiam acontecer com nenhum outro artista.”

Fonte: FolhaPress

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