
Com rebanho no menor nível em 75 anos, governo americano cria incentivos para retenção de fêmeas e ampliação da produção, mas estratégia pode reduzir a oferta de carne no curto prazo e aumentar dependência das importações
Os Estados Unidos estão tentando fazer algo que parece simples, mas é um dos problemas mais difíceis da pecuária: aumentar o número de bois sem derrubar ainda mais a oferta de carne no caminho.
O governo Donald Trump anunciou nesta segunda-feira (31) o programa “Ranchers First”, um pacote de medidas para acelerar a recomposição do rebanho bovino americano, hoje no menor nível em 75 anos.
O plano combina seguro para estimular a retenção de fêmeas, crédito para frigoríficos independentes, incentivo a novos pecuaristas e, num movimento particularmente simbólico, prioridade à carne americana nas compras governamentais.
À primeira vista, é uma política de estímulo a produção. Entretanto o problema é que para aumentar o rebanho amanhã, o pecuarista precisa deixar de mandar animais para o abate hoje.
Isso pode aumentar o preço da carne para o consumidor no curto prazo, justamente em um momento que o americano está enfrentando forte inflação de alimentos.
Reconstruir o rebanho custa carne no curto prazo
O mecanismo mais interessante anunciado pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) é o BRAND, uma nova cobertura dentro do programa Livestock Risk Protection (LRP).
A ideia é reduzir o risco econômico de uma decisão que, em condições normais de mercado, pode ser bastante cara para o produtor: reter uma novilha para reprodução em vez de vendê-la para o abate.
O governo pretende proteger economicamente essa decisão por dois anos. Se o valor que o animal teria no abate superar a vantagem econômica de mantê-lo como matriz, a cobertura poderá compensar essa diferença.
É uma tentativa clara de mudar o cálculo do pecuarista. O problema é que a conta física da pecuária não muda por decreto. Uma novilha que permanece no campo deixa de ser carne disponível para o consumidor. Depois, é preciso esperar a reprodução, o nascimento dos bezerros, o crescimento desses animais e sua entrada no ciclo produtivo.
Ou seja, a política pode reduzir a oferta de carne antes de aumentar a oferta de gado.
Essa defasagem ajuda a explicar por que a recomposição do rebanho americano não deve ser confundida com uma solução imediata para o preço da carne.
Dois problemas ao mesmo tempo
O governo americano tem, na realidade, dois problemas diferentes. O primeiro é produtivo: o rebanho encolheu e precisa ser reconstruído. O segundo é político: a carne ficou cara para o consumidor americano.
A administração Trump já vem tentando atacar o segundo problema com medidas de curto prazo, inclusive facilitando a entrada de carne destinada a hambúrgueres sem a cobrança adicional da cota e defendendo maior concorrência entre frigoríficos.
Agora, o governo amplia a aposta no lado da oferta. O “Ranchers First” procura criar condições para que mais animais sejam produzidos nos Estados Unidos, mas também tenta reorganizar quem abate e processa esses animais.
O alvo deixou de ser apenas o pecuarista
No programa detalhado nesta segunda-feira, o USDA anunciou um programa de empréstimos garantidos para ampliar a participação de frigoríficos pequenos e regionais. A estratégia inclui cooperativas de processamento, expansão de pequenas empresas e diversificação das proteínas processadas.
Há uma lógica econômica por trás disso. Se o rebanho voltar a crescer, os Estados Unidos precisarão ter capacidade de abate suficiente para processar esses animais.
O próprio USDA afirma que, depois dos recentes anúncios de fechamento de plantas, quase 20% da capacidade de processamento de carne bovina estará disponível quando o rebanho voltar a crescer. Trump quer, portanto, reconstruir não apenas o rebanho, mas também uma cadeia de processamento mais pulverizada e, sobretudo, mais americana.
Essa é uma diferença importante em relação a uma política simplesmente voltada para aumentar a produção. Washington está tentando mexer simultaneamente na fazenda, no frigorífico e no mercado consumidor.
Onde fica o Brasil?
E é impossível olhar para esse movimento considerando a posição brasileira. O país ampliou sua participação nas importações americanas de carne justamente em um momento em que os Estados Unidos enfrentam uma oferta doméstica apertada.
A matemática é bastante conhecida no mercado. Quando um dos maiores produtores mundiais de carne bovina reduz o próprio rebanho, abre-se espaço para fornecedores externos.
O problema é que esse espaço econômico pode se transformar rapidamente em um problema político. O governo Trump está dizendo explicitamente que quer colocar o pecuarista americano no centro da política de abastecimento.
Como mostra reportagem da Isadora Camargo, ele também está reclamando da liderança de quatro grandes companhias que dominam o setor nos EUA: Tyson Foods, Cargill, JBS USA e National Beef. As duas últimas têm controle brasileiro: a JBS USA pertence à JBS, enquanto a National Beef é controlada pela MBRF.
O novo programa prevê inclusive prioridade para carne bovina americana processada localmente nas compras de instituições públicas, como hospitais, presídios e outras unidades governamentais. Isso significa usar o próprio poder de compra do Estado para criar demanda para o produtor americano.
É uma tentativa de construir um mercado preferencial para a produção doméstica. E isso interessa diretamente ao Brasil porque o país está se beneficiando justamente da falta de carne americana.
A crise sanitária complicou ainda mais o cenário
A dificuldade americana não se resume ao tamanho do rebanho. A identificação da mosca-da-bicheira (Cochliomyia hominivorax) nos Estados Unidos em junho agravou a situação do abastecimento. A doença já havia provocado medidas sanitárias no México, importante fornecedor de gado para o mercado americano.
Isso adiciona uma variável sanitária a uma equação que já era apertada. O resultado é um mercado americano pressionado por três lados: rebanho reduzido, oferta limitada de carne e demanda firme.
Nesse cenário, importar mais carne é a maneira mais rápida de aumentar a oferta. Mas reconstruir o rebanho doméstico é a maneira mais estratégica de reduzir essa dependência no futuro.
Para o Brasil, importa saber quanto tempo levará para a estratégia americana funcionar e o que Washington fará enquanto isso.
Se a retenção de fêmeas ganhar força, a oferta americana pode ficar ainda mais apertada no curto prazo. Cria-se um cenário de maior dependência brasileira no curto prazo. Se o programa conseguir reconstruir o rebanho, ampliar a capacidade de processamento e estimular a entrada de novos pecuaristas, o cenário muda.
Fonte: CNN