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‘O Começo do Fim’ encena drama sobre amor e ruptura com Isabel Fillardis

Quando uma história de amor chega ao fim, a partilha raramente se resolve com o corte limpo da separação formal. Fica uma gramática inteira construída a dois: piadas que só o outro entende, queixas engolidas e a responsabilidade inescapável de educar um filho. É nessa fronteira incerta, onde a convivência acabou, mas as marcas afetivas continuam ativas, que se ancora a dramaturgia de Denise Crispun em “O Começo do Fim”.
Encenada por Isabel Fillardis e Well Aguiar, com direção de Rubens Camelo e supervisão de Amir Haddad, a peça foge da comédia de costumes ligeira e do melodrama raso. O que vai ao palco é um olhar direto, amparado por um humor agridoce, sobre o que resta de uma relação quando ela precisa mudar de rumo.
Os personagens sequer têm nomes no texto. Eles são identificados apenas como “Ele” e “Ela”. Essa escolha transforma os dilemas em espelho imediato para o público. “Foi uma escolha pensada para que qualquer pessoa na plateia possa se projetar na história. Se dermos um nome específico, criamos um distanciamento; sem nome, o público veste a pele dos personagens”, afirma Isabel.
Well Aguiar aproxima essa dinâmica do Teatro do Absurdo. “A dramaturgia da Denise flerta bastante com referências de Harold Pinter, Bertolt Brecht. Há esse jogo humano em que um desmente o outro, repete falas com naturalidade e inverte papéis sem aviso prévio. A falta de nomes sublinha essa universalidade das contradições humanas”.
No centro do atrito cotidiano está Pedro, o filho único, cuja presença se manifesta fora de cena por meio de cartas e um áudio gravado pelo ator mirim Antônio Caramelo. “Precisávamos de um ator que trouxesse peso e verdade para a leitura das cartas, mesmo sendo apenas em áudio. A presença dele amarra a narrativa sem precisar materializar o personagem fisicamente no palco, deixando que o público construa essa figura na imaginação”, diz Rubens Camelo.
Pedro vira o canalizador das pendências do casal: nas falas dos pais, a criança oscila entre a fragilidade diante do divórcio e o papel involuntário de instrumento nas disputas dos adultos.
A dramaturgia de Denise Crispun ganhou densidade quando a equipe decidiu incorporar a vivência de um casal interracial, algo ausente no original. Well diz que o projeto pedia mais fricção.
“Chegamos ao texto por meio do Rubens. Eu sentia que o texto era ótimo, mas precisava de uma faísca a mais para não virar apenas mais uma comédia romântica de costumes já vista dezenas de vezes. Quando pensamos em trazer a vivência de um casal interracial, a história ganhou corpo e propósito”.
A partir dessa decisão, o elenco buscou referências no letramento racial com obras da filósofa Bárbara Carine. O processo revelou como o racismo estrutural se infiltra nos descompassos do casamento.
“A Denise Crispun foi extremamente generosa ao acolher nossa proposta. Não queríamos uma comédia leve ‘que terminasse em pizza’, nem um drama trágico e cortante. ‘O Começo do Fim’ fala do amor sem romantização: sobre o que construímos, o que destruímos e, sobretudo, o que permanece quando o amor se transforma”, diz Fillardis.
Uma das passagens mais duras retrata a escolha do pai de manter o cabelo do menino raspado com a justificativa de evitar piolhos na escola -uma tentativa velada de atenuar os traços negros da criança.
“Não posso dizer que não é verdade. Não dá para cravar os motivos com precisão, porque ele ama demais esse filho, mas a estrutura racista opera exatamente aí: no campo sutil, em lugares tão íntimos e pessoais que fica difícil nomear”, afirma Fillardis. “Por que ele nunca levou essa discussão para a relação? Por que ela nunca dividiu as violências diárias que nós, mulheres pretas, atravessamos?”
O silêncio da mãe também revela o desgaste diário diante da falta de compreensão do parceiro. A personagem, por exemplo, omite dele o fato de ser constantemente confundida com a babá do próprio filho por ter a pele mais escura que a da criança.
“O racismo estrutural opera na ignorância e na maldade; ele é insidioso, vem no olhar enviesado, no desdém. Casos explícitos são enquadrados pela Lei 7.716, mas e o racismo que opera nas sombras? Na peça, ela preferiu não esticar a corda numa relação que já estava fragilizada. Mas até que ponto você deve guardar isso sem dialogar? Trouxemos esse pilar porque também somos um casal interracial na vida real”.
Essa tensão cênica atravessou os próprios ensaios. Mãe atípica de três meninos negros, Fillardis viu o palco reproduzir situações vividas em casa. “Na cena da terapia, por exemplo, o texto refletia de forma quase idêntica o que eu estava vivendo com meu filho mais novo, de 12 anos. Chegamos a interromper um ensaio por duas horas porque o espelhamento da realidade com o palco foi dilacerante”.
A peça não segue ordem cronológica, salta entre começos, fins e reconciliações breves. “Já veio do texto original. É uma brincadeira direta com o título: a história é contada de forma fragmentada, salteada. E o figurino atua como elemento narrativo fundamental nesse vai e vem no tempo”, explica Rubens.
Os trajes, criados em parceria com a designer e artista indígena W’e’ena Tikuna, usam tecidos orgânicos e sementes de tururi em peças modulares que se transformam ao longo das cenas. A cenografia de Janaína Wendling dialoga com referências africanas, e a trilha sonora de Muato marca os estados de espírito de cada diálogo.
A encenação encontrou seu tom essencial nos ensaios no espaço do grupo Tá Na Rua, no Rio de Janeiro, com a escuta de Amir Haddad.
“Ele nos deu a bênção para a montagem. Fez pouquíssimas intervenções e assistiu ao espetáculo quase todo em silêncio. No final, falou sobre a busca pelo simples. Como dizia Clarice Lispector, dá muito trabalho alcançar o simples -e o Amir ressaltou justamente o quanto essa simplicidade é difícil e preciosa na cena”, diz Fillardis.
Sem vilões ou lições de moral, “O Começo do Fim” recusa respostas fáceis sobre términos e recomeços. Como sintetiza Fillardis, “esse é um dos maiores propósitos da peça: fazer com que qualquer pessoa na plateia se reconheça em algum momento, seja nos conflitos universais do amor, seja nas especificidades da relação interracial”. Interessa ao espetáculo a franqueza da reconstrução: encarar o que desmoronou e descobrir o que ainda pode ser feito com o que restou.
Depois de circular por cidades como Belém, Manaus, Recife e Brasília, o espetáculo cumpre temporada em São Paulo, no Teatro Itália.
O COMEÇO DO FIM
Quando 8 a 24 de outubro de 2026. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 19h
Onde Teatro Itália – avenida Ipiranga, 344, República
Preço R$ 120
Classificação 12 anos
Autoria Denise Crispun
Elenco Isabel Filardis e Well Aguiar
Direção Rubens Camelo
Link https://bileto.sympla.com.br/event/123880/d/400105

Fonte: FolhaPress

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