
Banco aumenta exposição à moeda e aos juros brasileiros após o primeiro turno, mas condiciona novos ganhos à evolução eleitoral e às perspectivas de ajuste fiscal.
O JPMorgan elevou sua exposição ao real e aos juros brasileiros após a forte reação dos mercados ao primeiro turno das eleições. Na projeção do dólar apresentada pelo banco, a moeda americana pode caminhar para a faixa de R$ 4,70 a R$ 4,80, caso o cenário político considerado favorável pelos estrategistas se confirme.
A instituição passou de uma posição neutra para overweight nos dois mercados, indicando uma exposição acima da referência utilizada em sua carteira. Embora reconheça que parte da valorização dos ativos superou as expectativas, o banco ainda identifica espaço para ganhos adicionais.
Na avaliação do JPMorgan, o resultado eleitoral reduziu a incerteza e colocou Flávio Bolsonaro como favorito aparente para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. O avanço da direita e da centro-direita no Congresso também poderia facilitar a aprovação de reformas em uma eventual mudança de governo.
Projeção do dólar depende das eleições e do cenário fiscal
A possibilidade de o dólar atingir R$ 4,70 a R$ 4,80 está vinculada à consolidação da vantagem de Flávio Bolsonaro nas próximas pesquisas e à perspectiva de uma política fiscal mais rigorosa.
Segundo os estrategistas, uma eventual transição política, combinada à nova composição do Congresso, aumentaria as chances de apresentação e aprovação de um plano de consolidação das contas públicas mais ambicioso.
O banco também mantém uma estratégia com opções de dólar contra o real para três meses, estruturada com preços de exercício de R$ 5,00 e R$ 4,80. A operação permite exposição a uma queda da moeda americana dentro dessa faixa.
No mercado de opções, a redução da volatilidade após o primeiro turno indica que os investidores passaram a precificar menos incerteza eleitoral. Essa mudança, porém, não elimina a possibilidade de oscilações até a votação.
Juros elevados favorecem o carry trade com o real
O diferencial de juros continua sendo um dos principais argumentos do JPMorgan para aumentar a exposição à moeda brasileira.
A instituição espera que o real volte a ganhar destaque nas estratégias de carry trade na América Latina. Nessas operações, investidores buscam aproveitar a diferença entre os juros de economias com taxas menores e o rendimento oferecido por ativos brasileiros, assumindo também o risco cambial.
Os economistas do banco mantêm a previsão de Selic em 12,25% ao fim de 2027. Mesmo com novos cortes, avaliam que o Brasil continuaria oferecendo uma vantagem relevante de rendimento em relação a outros mercados emergentes.
Por isso, o JPMorgan considera possível combinar um real mais valorizado com juros mais baixos. Essa leitura seria revista se as expectativas para a Selic passassem a apontar taxas de um dígito, hipótese que não integra o cenário-base da instituição para o futuro próximo.
Real mais forte pode ajudar a conter a inflação
A valorização cambial também pode contribuir para reduzir a pressão inflacionária e melhorar as expectativas, ampliando o espaço para cortes de juros pelo Banco Central.
O JPMorgan descreve uma possível sequência favorável: melhores perspectivas fiscais reduziriam o prêmio de risco e fortaleceriam o real; a apreciação da moeda ajudaria a conter a inflação; e esse ambiente permitiria uma flexibilização monetária mais profunda.
O banco também avalia que a melhora do cenário cambial poderia favorecer uma redução gradual da posição do Banco Central em swaps cambiais.
Esses efeitos dependem da continuidade das condições favoráveis e da confirmação das expectativas sobre as contas públicas.
Queda dos juros superou as expectativas do JPMorgan
No mercado de juros, a velocidade da reação após o primeiro turno surpreendeu a instituição.
Antes da abertura do primeiro pregão pós-eleição, o JPMorgan considerava posições que se beneficiariam da queda das taxas nos vencimentos longos, com 13% como referência. O movimento acabou sendo mais intenso do que o previsto.
Para o banco, a consolidação fiscal permanece como a principal sustentação para novas quedas. Entretanto, depois da rápida valorização, os níveis de preço passam a exigir mais atenção: os modelos da instituição já não identificavam um prêmio de risco particularmente elevado antes do movimento.
Cenário externo e execução fiscal podem limitar novos ganhos
O JPMorgan utiliza a experiência da Colômbia como referência. Naquele mercado, a valorização dos títulos continuou após o segundo turno, mas foi parcialmente revertida pela alta dos juros globais e por frustrações fiscais.
No Brasil, a reação inicial foi mais rápida e intensa. Segundo o banco, a queda das taxas no primeiro dia superou em mais de duas vezes, em pontos-base, o movimento observado na Colômbia.
A continuidade dos ganhos dependerá, portanto, das próximas pesquisas, das sinalizações econômicas dos candidatos e da capacidade de transformar expectativas fiscais em medidas concretas.
Embora veja espaço para juros menores, o JPMorgan mantém como cenário-base uma redução gradual da Selic. A projeção de um dólar mais baixo também permanece condicionada à evolução política e econômica.
Fonte: IstoéDinheiro