Data Mercantil

Jornada de sucesso da Coreia do Sul tem um valor didático

Nem os carros da Hyundai ou da Kia Motors; nem os celulares da Samsung ou os produtos eletrônicos da LG.

Embora sejam marcas da Coreia do Sul que ganharam o mundo, não foram elas o foco escolhido pelo ator, diretor e produtor Daniel Dae Kim para realizar “K-Everything”série original lançada pela CNN Internacional.

Seus episódios são dedicados ao boom da cultura coreana ao longo das últimas duas décadas. Do fenômeno do K-pop ao negócio bilionário dos produtos e tratamentos de beleza; do sucesso dos seus filmes e seriados a uma culinária de características próprias que contrasta com as cozinhas dos vizinhos Japão e China.

A Coreia do Sul é, de certa forma, um país singular. Sua jornada desde o final da guerra com a Coreia do Norte, nos anos 1950, foi marcada por uma forte aposta na industrialização como meio para superar a pobreza. Políticas governamentais destinaram crédito e garantiram protecionismo para determinadas corporações em setores considerados estratégicos (e, portanto, preferenciais), incentivando-as a avançar sobre o mercado internacional.

Esses grupos empresariais eleitos, os chaebols, foram essenciais para transformar o país em uma das 15 maiores economias do mundo, tanto em termos de PIB nominal quanto em PIB per capita, a partir de uma jornada tecnológica bem-sucedida.

Em paralelo ao crescimento econômico a Coreia do Sul teve que lidar com períodos de ditadura militar, mas soube virar a página para se tornar uma sólida democracia.

O que poderia ficar registrado apenas como mais um caso de milagre econômico e superação no ambiente político ganhou camada adicional: uma trajetória cultural de sucesso que a série de Daniel Dae Kim, nascido na Coreia do Sul, explora muito bem. Em um dos episódios ele lembra que quando criança, já morando nos Estados Unidos, lhe perguntavam se ele era japonês ou chinês. Ele então explicava sua origem. E acrescenta: “na época não era ‘cool’ ser coreano”.

De fato, hoje as percepções sobre o país são bastante diferentes e reconhecimentos aparecem em diferentes dimensões.

Menciono tudo isso para chegar ao Brasil.

Também por aqui apostamos na industrialização nos anos 1950 e ao longo do tempo superamos governos autoritários para consolidar a democracia. Temos empresas de ponta em diferentes setores que participam de forma competitiva do mercado global, forte empreendedorismo e um agronegócio que registra avanços quantitativos e qualitativos. Possuímos um sistema financeiro sofisticado. Mais: exibimos uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, nossa produção cultural é riquíssima e a culinária, diversificada. Pantanal, praias, floresta e serras são opções de turismo.

Parece claro que esses ativos nacionais, entre tantos outros, poderiam ser melhor interligados de forma a construir uma marca de país mais robusta e promissora, atraindo ainda mais visitantes, investidores e parceiros.

Muito se tem comentado que “o Brasil está na moda”, exatamente pela valorização de nossas qualidades em diferentes segmentos.

Sim, ganhamos um Oscar e batemos um recorde no ano passado ao receber mais de 9 milhões de turistas (a França recebe perto de 100 milhões e a Espanha, 90 milhões). Vendemos lá fora itens de um amplo cardápio: aviões, carnes, suco de laranja, soja, máquinas e equipamentos, entre outros. Conseguimos construir reservas cambiais confortáveis.

São conquistas evidentes.

Ocorre que transformações profundas estão redesenhando novas áreas de influência e abrindo espaço para que players emergentes ganhem maior peso específico geopolítico, econômico e cultural.

A fila anda e isso merece reflexões.

Esse seria um bom momento para o Brasil iniciar uma robusta, ampla, geral e irrestrita movimentação para vender sua marca e o conjunto de suas realizações de forma mais estratégica. Tal abordagem poderia potencializar ações específicas que tradicionalmente fazem Apex e Embratur, por exemplo, e levar a um novo patamar a divulgação dos diferenciais do país.

Ou seja, é inegável que estamos fazendo esforços para nos colocarmos como opção no mapa global de negócios. Mas há muito mais a fazer. O relógio não para.

Eventos como a COP30 e a Copa do Mundo ajudam a ampliar a visibilidade do país no cenário internacional, mas são datados. É preciso trabalhar mais e melhor aquilo que se convencionou chamar de “marca Brasil”, hoje mais um conceito do que um veículo poderoso capaz de colocar o país na vitrine de forma mais atrativa.

É bom lembrar que, cada um à sua maneira, diferentes países da Ásia Central, do sudeste asiático e da África se movimentam nesse momento para buscar um melhor lugar ao sol.  Fazem isso a partir de suas vantagens competitivas, sejam elas a produção de petróleo, uma condição geográfica e logística privilegiada, ou abundância de mão de obra.

Noves fora nossas conhecidas vulnerabilidades em relação a contas públicas e  juros altos, entre outros desafios do momento, o Brasil possui ativos suficientes para novos saltos. Eles exigirão menos discursos e mais políticas integradas e consistentes, além de uma boa pitada de visão de futuro.

Um provérbio chinês sugere não pensar no tempo que já foi perdido, mas sim agir rápido: “A melhor época para plantar uma árvore foi há vinte anos; o segundo melhor tempo é agora.”

Fonte: CNN

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