
Ao WW, Sandro Teixeira Moita avalia que o projeto israelense superou expectativas americanas e colocou Donald Trump em situação de xeque no Oriente Médio
O projeto estratégico de Israel para o Oriente Médio teria arrastado os Estados Unidos para um conflito que não era do interesse norte-americano, segundo avaliação do professor de Ciências Militares da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) Sandro Teixeira Moita, em entrevista ao WW.
Para o especialista, embora os objetivos práticos dos dois países estivessem alinhados no início do conflito, as ambições israelenses acabaram superando as expectativas americanas.
“Israel arrastou os Estados Unidos para sua expedição à Sicília”, referindo-se ao embate que levou à derrota de Atenas na guerra do Peloponeso. Para Moita, o projeto israelense era claro, mas dependia do poderio militar americano para ser executado, já que a força de Israel sozinha não seria suficiente para impor sua vontade ao Irã.
Trump entre acordos e pressões
Sandro Moita destacou que o presidente dos EUA, Donald Trump, se diferencia de outros líderes americanos por enxergar em acordos vitórias estratégicas, independentemente dos regimes com quem negocia. Como exemplos, o especialista citou a negociação da retirada do Afeganistão com o Talibã, em 2020, e as tratativas com o governo da Venezuela.
Segundo o professor de Ciências Militares da Eceme, Trump usa a força como uma espécie de intimidação sobre seus oponentes, quase como uma estratégia midiática, e está sujeito a ciclos políticos que outros líderes não enfrentariam da mesma forma.
O especialista apontou que o conflito permanente no Oriente Médio afeta diretamente a agenda interna de Trump.
Com a Copa do Mundo se aproximando — evento que Trump deseja promover como uma grande vitrine americana, ainda que seja realizado em três países — e a menos de um mês do 4 de julho, data que marca os 250 anos da independência dos Estados Unidos, a guerra representa um obstáculo político significativo. “O conflito permanente no Oriente Médio afeta a sua agenda”, afirmou Sandro.
Teerã percebe a vulnerabilidade americana
De acordo com Moita, o regime iraniano identificou essa fragilidade e passou a explorar as negociações ao limite. “Teerã sentiu o cheiro de sangue na água, tal qual o tubarão, e por isso tem empurrado as negociações ao limite”, disse o especialista, descrevendo o estilo iraniano de negociação como “característico dos bazares do país”.
Ele lembrou ainda que o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos John Kerry já havia observado que os iranianos “lutam até pelas vírgulas de um acordo”, o que tornaria o processo desgastante para Trump.
Diante desse cenário, o professor alertou para o risco de uma ação militar americana de curta duração — entre 36 e 72 horas — pouco antes ou nos primeiros dias da Copa do Mundo, como forma de pressionar o Irã.
No entanto, o especialista concluiu que, no momento atual, a iniciativa das ações no Oriente Médio não está nas mãos de Israel nem dos Estados Unidos: “Quem tem a iniciativa das ações do Oriente Médio não é nem Israel, nem Estados Unidos. É o regime de Teerã.”
Fonte: CNN