
A cobrança de impostos para o transporte de lixo têxtil não estimula a indústria da moda a reaproveitar resíduos, diz Gabriela Rizzo, CEO do Grupo Malwee, empresa de Santa Catarina.
“Hoje, a legislação não ajuda para que a gente possa ter circularidade a favor da cadeia”, afirma à Folha. “Teria que ter um ambiente regulatório mais favorável para a gente se animar mais ainda para colocar isso em prática e em escala.”
No setor fashion, a economia circular transforma uma roupa descartada em um novo produto, o que ajuda a reduzir o impacto ambiental das indústrias. O modelo ainda engatinha no Brasil, e o país reaproveita apenas 1,3% do material que consome, de acordo com o relatório Circularity Gap Report.
Segundo o Grupo Malwee, de 3% a 5% do custo de peças feitas com fibras recicladas vão para pagar ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) durante o transporte de lixo têxtil para a produção de peças recicladas.
O cenário fez a empresa diminuir a margem de lucro na venda de moletons da coleção Fio do Futuro, fabricados a partir de roupas em péssimo estado de conservação que foram doadas à Cruz Vermelha e iriam para aterros sanitários.
O processo envolve a desfibragem das peças e a tecelagem de um novo fio com poliéster de garrafa PET, gerando um produto final com 85% de matéria-prima vinda do pós-consumo. Cada peça produzida dessa forma emite 44% menos CO2 (dióxido de carbono) e consome 33% menos água, segundo a empresa.
Mas, para isso acontecer, o lixo têxtil precisa ser transportado entre diferentes estados como mercadoria, gerando a cobrança do ICMS. Quando o resíduo é carregado para aterros sanitários, não há incidência do imposto.
“Para fazer a circularidade, eu tenho custos maiores do que teria para pegar uma matéria-prima que não é de reúso. A lei precisa amadurecer e estimular que a gente aproveite o resíduo têxtil, para escalar o modelo circular sem perder a competitividade econômica”, afirma Rizzo.
Segundo ela, a situação nacional contrasta com a da Europa, onde governos facilitam os trâmites da circularidade. O ICMS é um dos impostos que deve deixar de existir com a reforma tributária, sendo substituído pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).
A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) afirma não ter uma estimativa nacional do total pago em impostos para o transporte de resíduos. “A precificação tributária dessa operação é pulverizada e flutua significativamente a depender de diversas variáveis logísticas e jurídicas”, diz a entidade.
Conforme a Abit, a taxação muda de acordo com a distância do frete, o modelo de transporte escolhido (com frota própria ou terceirizada) e leis locais de incentivo, já que estados e municípios podem aplicar regimes especiais para a reciclagem.
O Grupo Malwee diz ter reaproveitado 7,4 toneladas de roupas de 2022 a 2024, que geraram 3.823 novas peças. É uma fração pequena comparada com a produção anual da companhia, que varia de 30 milhões a 40 milhões de peças.
“Ainda é muito embrionário olhando o tamanho da nossa escala, mas é a partir de iniciativas como essa que a gente consegue escalar e ver como levar isso para outras linhas de produto”, afirma a executiva. “A maioria das empresas de moda ainda não usa o design circular como a base da criação.”
O consumo rápido e barato chamado de fast-fashion, com roupas que entram e saem de moda em pouco tempo, não colabora, e outra dificuldade é melhorar a consciência ambiental da população, segundo a CEO.
“Temos um desafio muito grande no letramento do consumidor”, diz Rizzo, acrescentando que a empresa tem adotado iniciativas para tornar o público mais sensível ao reaproveitamento de peças.
Fonte: FolhaPress