
Se atingido o objetivo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aumentar a exportação de carne bovina americana para os chineses, o saldo também será positivo para o Brasil.
Esta é a avaliação de membros do governo Lula e do setor privado ouvidos pela Folha de S.Paulo, que lidam com a iminente queda nas exportações da commodity em decorrência da medida de salvaguarda imposta pela China no final do ano passado, e o mais recente movimento da União Europeia de vetar a entrada de proteínas animais na região ao retirar o Brasil da lista de países habilitados para exportação.
Os interlocutores afirmam que a venda da carne bovina brasileira para os Estados Unidos tem sido vista pelo setor como um bote salva-vidas diante dos dois problemas, uma vez que o país atingiu seu menor rebanho em 75 anos e não tem carne suficiente para alimentar sua própria população, dependendo da importação.
Caso os frigoríficos americanos voltem a ampliar os níveis de importação para a China, haverá um vácuo no mercado doméstico e abertura para a entrada dos produtos brasileiros, segundo técnicos. O movimento também poderia abrir canais de venda para outras nações que já fazem negócio com os EUA e podem ser preteridas para que priorizem negócios com Pequim, que tem alta demanda pelo produto.
Aumentar as vendas da commodity para o país asiático era um dos objetivos de Trump nos encontros com o líder do regime chinês, Xi Jinping, durante visita de Estado feita essa semana. Até agora, não foram anunciados avanços nessa negociação, mas uma apuração da Reuters mostrou que Pequim renovou temporariamente uma série de licenças vencidas de frigoríficos americanos. As renovações ficaram em vigor apenas por algumas horas durante a cúpula entre os líderes, segundo a agência, sugerindo que o assunto pode ter sido tratado.
Para que as vendas aumentem, o governo americano precisa que as licenças expiradas de centenas de frigoríficos sejam renovadas. Segundo Pequim, 60% das plantas registradas estão com autorização vencida.
Sem a renovação das autorizações, o setor enfrenta dificuldade de acesso ao consumidor chinês.
Uma renovação seria uma vitória importante para Trump, que se vê pressionado por pecuaristas e frigoríficos. Em decorrência da guerra comercial, o setor perdeu acesso a um mercado que já foi bilionário com a queda das exportações para a China. De um pico de US$ 1,7 bilhão em 2022, as vendas ao país asiático caíram para apenas US$ 500 milhões no ano passado.
O americano também enfrenta recordes de preço da commodity no país e busca formas de agir para diminuir o preço, considerando também o aumento da importação.
O espaço deixado pelos EUA na China tem sido ocupado por países como o Brasil, que veem crescer as vendas da commodity à China nos últimos anos. Em 2022, o Brasil teve receita de US$ 7,951 bilhões com as exportações; em 2025, de US$ 8,90 bilhões.
Apesar disso, a salvaguarda imposta por Pequim de 2026 até 2028 estabeleceu um limite equivalente a cerca de 65% do total exportado pelos frigoríficos brasileiros no último ano, o que causará redução global estimada em cerca de 10% nas vendas dos produtos bovinos ao exterior, segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes).
O governo brasileiro tentou negociar com o regime chinês a utilização das cotas remanescentes de países que não vão atingir o limite, como os EUA, mas teve o pedido negado, como mostrou a Folha de S.Paulo.
O Brasil utilizou 50% da cota estabelecida, segundo dados do Ministério do Comércio do país asiático divulgados no início de maio. A estimativa do setor, porém, é que esse número seja ainda maior, visto que Pequim não considera a carne em trânsito, apenas o produto que já chegou nos portos do país.
Os frigoríficos brasileiros serão taxados caso as importações chinesas excedam 1,1 milhão de toneladas em 2026. Em 2025, a China respondeu por 48% do volume exportado, com 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,9 bilhões. O segundo destino, os EUA, registrou 271,8 mil toneladas e US$ 1,64 bilhão.
O foco do setor privado e do governo no consumidor americano se intensificou após a União Europeia não incluir o Brasil na lista de países que cumprem suas regras contra o uso excessivo de antibióticos na pecuária. Com isso, o país não poderá exportar carnes para os membros do bloco a partir de setembro.
O governo Lula afirmou que recebeu a notícia com surpresa e adotará providências para que a venda seja liberada.
O setor da carne, assim como outros ao redor do mundo, sofre ainda com os efeitos colaterais da guerra no Irã, que elevou o preço dos seguros e forçou navios a utilizar rotas alternativas e mais longas em decorrência do fechamento do estreito de Hormuz, que já completa mais de dois meses.
Fonte: FolhaPress