
Competitividade e predominância de importações pode desestimular produção da indústria e diminuir o consumo da pluma no Brasil
O eventual fim da “Taxa das Blusinhas”, tributação sobre compras internacionais de pequeno valor do programa Remessa Conforme, deve pressionar os preços e diminuir a demanda doméstica por algodão, segundo representantes do setor. Atualmente, cerca de um terço da produção brasileira de algodão permanece no país para ser transformada em produto final.
Márcio Portocarrero, diretor-executivo da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), destaca que a demanda interna por algodão tende a diminuir com o fim da taxa, o que resulta em um efeito que atinge a cadeia de produção. “Com o fim da taxação, os consumidores podem voltar a priorizar o comércio on-line de roupas importadas e não fabricadas no Brasil, o que representa um risco para toda a cadeia têxtil nacional”, disse à CNN Brasil.
“Caso haja uma redução da demanda interna por algodão, a tendência é que os produtores busquem novos mercados internacionais capazes de absorver essa produção, ampliando o volume exportado de algodão brasileiro”, explicou.
O diretor reforça ainda que, em um cenário em que os produtores já operam com margens apertadas, uma eventual queda no consumo interno também pode pressionar e desvalorizar os preços do algodão em pluma, o que motiva uma possível diminuição na área plantada.
O fim da tributação ainda pode impactar significativamente a indústria de varejo, que depende da pluma brasileira e busca maior competitividade frente aos concorrentes internacionais. O programa impõe um imposto de 20% sobre compras de até US$ 50 em sites do exterior e 60% para compras de US$ 50,01 a US$ 3 mil.
Segundo dados da Receita Federal, o Remessa Conforme arrecadou R$ 9,6 bilhões desde sua implementação em agosto de 2024, ano em que a captação com o imposto chegou a R$ 2,88 bilhões. Em 2025, R$ 5 bilhões foram captados pela medida, enquanto R$ 1,78 bilhão foram arrecadados até abril de 2026.
A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) se manifestou de forma contrária ao fim da taxação que integra o programa Remessa Conforme e afirma que a revogação pode desestimular a empregabilidade da indústria nacional, desacelerar a economia nacional e diminuir a competitividade frente a mercados internacionais como o Chinês.
Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, entende que a medida promove um efeito em cadeia sobre a demanda da pluma. “Em relação ao algodão, principal matéria-prima da cadeia têxtil brasileira, é natural que o consumo doméstico acompanhe o desempenho da própria indústria têxtil e de confecção nacional. Quanto maior a produção local, maior tende a ser o consumo interno de algodão”, disse à CNN Brasil.
“Se houver um avanço ainda maior das importações de produtos acabados por meio das plataformas internacionais, especialmente em condições desiguais de concorrência, a tendência é de redução da produção nacional e, consequentemente, de menor demanda doméstica por algodão”, destacou.
Na visão da associação, exportar apenas matéria-prima gera menos valor agregado, empregos, renda e arrecadação que transformar o algodão em fios, tecidos, roupas e produtos confeccionados em território nacional.
“Do ponto de vista econômico, uma eventual eliminação da tributação das pequenas encomendas internacionais pode ampliar a pressão sobre a indústria e o varejo nacionais, afetando investimentos, produção, arrecadação e empregos formais em toda a cadeia têxtil e de confecção brasileira”, concluiu.
Segundo dados da Abrapa, o setor têxtil e de confecção, amplamente abastecido pela pluma, fatura R$ 221 bilhões e exporta US$ 908 milhões por ano. As importações, mesmo com a “taxa das blusinhas” ainda são soberanas em US$ 6,6 bilhões, o que ocasiona déficit de US$ 5,7 bilhões sobre a balança comercial. O setor emprega, segundo dados, 1,31 milhão de pessoas em mais de 25 mil empresas no Brasil.
A permanência da “taxa das blusinhas” é defendida pelo vice-presidente da República, e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, que afirma que o programa de taxas defende a indústria nacional, principalmente a ligada a produtos de baixo valor. Por outro lado, defensores da medida indicam que a arrecadação por meio do programa contribui para atingir a meta fiscal do governo, com superávit de 0,25% do PIB (Produto Interno Bruto).
Em entrevista à CNN Brasil, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou que a pauta possui complexidades por afetar o varejo e o comércio nacional, mas ainda discute a revogação da medida e seus impactos junto ao Governo Federal.
Em março, a pesquisa Latam Pulse Brasil, divulgada e apurada pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, apontou que a “taxa das blusinhas” foi o maior erro cometido pelo governo Lula até então. O resultado reflete a posição de 62% dos brasileiros e classifica a medida como impopular.
Fonte: CNN