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Disputa entre sócios da Azzas 2154 aprofunda estresse em grupo dono de Hering e Arezzo

Uma ação cautelar pode azedar de vez a relação entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy, os dois principais sócios da Azzas 2154, resultado da união entre Arezzo&Co e Soma e um dos maiores grupos de moda da América Latina. Segundo pessoas próximas ao negócio, a disputa pode levar até a uma cisão.
Roberto Jatahy, um dos sócios principais do Grupo Azzas, ingressou com uma ação cautelar para impedir que a marca de vestuário masculino Reserva seja retirada da unidade de negócios sob seu comando, localizada no Rio de Janeiro. A informação foi publicada primeiro por Lauro Jardim, do jornal O Globo.
A decisão de retirada da marca Reserva do núcleo carioca, segundo fontes a par da disputa, teria sido tomada às vésperas de uma reunião do conselho de administração, ocorrida após Ruy Kameyama ter deixado o grupo, em abril. Membro do conselho do Grupo Soma e, depois, do da Azzas 2154, Kameyama era próximo de Jatahy.
A ideia seria unir a operação de Reserva e Hering no sul do Brasil.
Procurada, a Azzas 2154 informou, em comunicado ao mercado, que foi surpreendida pela existência de pedido judicial de Jatahy referente à gestão da unidade de moda masculina da companhia, que nos termos do estatuto social compete ao CEO decidir.
“Trata-se de assunto também regulado em acordo de acionistas, e não se esperam repercussões para a operação. A companhia buscará acesso às informações pertinentes relacionadas à referida ação e tomará medidas que sejam aplicáveis”, disse o comunicado.
A Azzas 2154 reúne marcas em calçados e bolsas (como Arezzo, Schutz, Anacapri), moda feminina (como Animale, NV, Cris Barros, Maria Filó e Farm Rio, a menina dos olhos), moda básica (Hering) e moda masculina, como a Reserva, em torno da qual se dá a disputa.
A Reserva foi pensada como uma das quatro verticais do grupo, sob o comando de seu fundador, Rony Meisler, que deixou o negócio. A Reserva, então, vinha sendo integrada à operação no Rio em um trabalho de reorganização e integração que durou cerca de dez meses e havia sido concluído há cerca de três.
Segundo pessoas próximas ao negócio, o processo já previa um impacto de R$ 80 milhões no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) deste ano, valor já incorporado ao orçamento da companhia, além de um efeito recorrente estimado em R$ 116 milhões a partir do próximo ano.
O relacionamento conturbado entre Birman e Jatahy não é novidade, mas ainda não havia chegado ao campo jurídico por meio de uma ação cautelar. Os dois já tinham quase colocado um ponto final na união entre Arezzo e Soma em meados do ano passado, quando dificuldades de conciliar culturas e estilos de gestão diferentes vieram à tona com mais força.
As desavenças, no entanto, começaram antes. Após o anúncio do negócio, em fevereiro de 2024, foram quase dois anos de processo de fusão, que envolveu, entre outros pontos, mudanças no conselho de administração e da própria diretoria, com a saída de fundadores de algumas das marcas como Thiago Hering, da Hering, e o próprio Meisler, da Reserva.
Mais recentemente, uma das saídas pensadas para apaziguar os ânimos e resolver as disputas internas foi a criação de uma estrutura nos moldes da Itaúsa (holding que controla o banco Itaú), nome que acabou inclusive batizando o projeto interno.
Kameyama, que servia como uma espécie de amortecedor entre Jatahy e Birman, conduziria o desenho: Arezzo e Hering de um lado, marcas femininas e masculinas de outro.
O executivo, porém, acabou deixando a empresa antes disso, em abril. Segundo fontes, a ideia seria formar duas empresas apartadas com culturas diferentes e remunerações variáveis, mas com o resultado consolidado na holding.
Com o mais novo capítulo, pessoas próximas ao negócio dizem enxergar até mesmo a possibilidade de uma cisão. O temperamento de Birman, resultados aquém do esperado, insatisfação e movimentação grande de executivos, demissões e perda de poder do conselho de administração justificariam o desfecho.
A ação da companhia registrou queda de 3,2% nesta terça-feira (12) e fechou o dia cotada a R$ 19,40. Os papéis acumulam queda de 61,5% desde agosto de 2024, quando começaram a ser negociados sob o nome da empresa resultante da fusão (Azza3).
Em entrevista à Folha de S.Paulo em dezembro de 2025, Alexandre Birman disse que a fusão estava concluída. “Mas são vários momentos até evoluir e maturar. Aprendi a dar mais empoderamento para a ponta [da hierarquia organizacional], a trabalhar com menos controle de market share [participação de mercado]”.
Questionado pela reportagem se ele se considerava centralizador, um dos motivos citados nos bastidores para o possível fim do negócio com o sócio Roberto Jatahy, Birman diz que é “mão na massa”.

Fonte: FolhaPress

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