
Excesso de chuva prejudica cana e grãos de inverno, enquanto risco de seca preocupa produtores de castanha; no café, umidade favorece lavouras.
A previsão de um pico do El Niño em novembro amplia a preocupação com os contrastes de chuva e seca em regiões fundamentais para a produção agropecuária brasileira. O risco, presente em relatórios de mercado e nas discussões de associações, produtores e cooperativas desde maio, reforça os alertas para possíveis dificuldades nas safras até o primeiro semestre de 2027. A depender do cultivo, os efeitos negativos podem durar mais tempo.
A variação se dá conforme a cultura e a região. Enquanto o excesso de chuva prejudica a colheita da cana-de-açúcar e dos grãos de inverno no Centro-Sul, a umidade favorece as lavouras de café. Na Amazônia, a possibilidade de novos períodos de calor intenso e seca preocupa a cadeia da castanha, com consequências que podem se estender por mais de uma safra.
No Paraná, as chuvas comprometeram a produtividade e a qualidade dos grãos de inverno. Segundo relatório do Departamento de Economia Rural (Deral), divulgado em 29 de outubro, a produção deve atingir 2,84 milhões de toneladas, queda de 28% sobre 2025.
Para o trigo, a estimativa é de 1,9 milhão de toneladas, recuo de 34%, resultado da redução da área e do rendimento. As precipitações durante a colheita também prejudicaram a qualidade do cereal, restringindo a oferta para a indústria de panificação.
A cevada perdeu a perspectiva de produção recorde, apesar da ampliação da área no estado, o maior produtor da matéria-prima da cerveja. A projeção caiu para 492 mil toneladas, 2% abaixo de 2025, com perdas de qualidade menos expressivas que as do trigo. Aveia, centeio e triticale também registraram redução de área e produtividade.
Na Amazônia, efeitos podem alcançar safras futuras
Na produção de castanha-da-Amazônia, o intervalo de 12 a 18 meses entre a floração e a frutificação faz com que as condições climáticas de um período influenciem colheitas posteriores.
Segundo Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, a safra que começa em novembro e segue até abril tem perspectiva relativamente favorável. Para os ciclos seguintes, porém, a possibilidade de recorrência de calor intenso e seca preocupa.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, antes dos eventos climáticos extremos registrados na década passada, a produção brasileira oscilava entre 38 mil e 42 mil toneladas.
Após os episódios severos de El Niño de 2015 e 2016, o volume caiu para cerca de 23 mil toneladas em 2017. A recuperação foi irregular: em 2022, a produção voltou a aproximadamente 38 mil toneladas, mas recuou para 26 mil toneladas após o novo episódio do fenômeno, em 2023 e 2024.
Além de afetar o desenvolvimento das árvores, as secas dificultam o escoamento da produção na Amazônia. O longo ciclo dos castanhais amplia essa vulnerabilidade, já que os efeitos do estresse climático podem persistir mesmo depois da melhora das condições meteorológicas.
Chuvas afetam a safra de cana no Centro-Sul e Nordeste
No Centro-Sul, o excesso de chuvas atrasa a maturação da cana-de-açúcar e o avanço da colheita, elevando os riscos para a produção de açúcar e etanol.
Em junho e julho, as precipitações ficaram muito acima do esperado para o período. A umidade prolongou o crescimento vegetativo da cultura e limitou o acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), indicador da qualidade da matéria-prima processada pelas usinas.
Estimativas de mercado apontam atraso superior a 20% na safra. Tradicionalmente concentrada até o fim de novembro, a moagem deverá se estender até dezembro e, em algumas usinas, até janeiro, diante da persistência das chuvas até outubro.
Cerca de 50 milhões de toneladas de cana podem deixar de ser colhidas nesta safra, segundo estimativas de mercado. Esse volume de cana bisada — que permanece no campo para o ciclo seguinte — e a colheita tardia também podem comprometer o desempenho da safra 2027/28, prevista para começar em março.
No Nordeste, a preocupação é com a seca. A estimativa é de produção de 55 milhões de toneladas de cana, ante 56,3 milhões na safra anterior.
Chuvas favorecem a umidade nas lavouras de café no Sudeste e Sul
Nas áreas de café, as chuvas mantêm boa disponibilidade de umidade, segundo atualização da World Weather. No fim de semana analisado, o Sul de Minas e São Paulo concentraram os maiores volumes, entre 18 e 70 milímetros.
As precipitações também alcançaram o Cerrado Mineiro, o Espírito Santo e o Paraná. No Cerrado, os registros ficaram geralmente entre 1 e 5 milímetros, com pontos de até 38 milímetros. O Espírito Santo recebeu até 13 milímetros, enquanto a Bahia permaneceu seca.
Para os dias seguintes, a previsão indicava chuvas no Sul de Minas, na Zona da Mata, no Espírito Santo, no nordeste mineiro e na Bahia. Depois, as precipitações voltariam a avançar sobre Paraná, São Paulo e Sul de Minas, com volumes de até 45 milímetros por dia em pontos isolados.
O cenário favorece a manutenção da umidade nas áreas produtoras, mas a atualização não apresenta estimativas de impacto sobre a produtividade ou a qualidade do café.
Soja: entre o risco climático e a perspectiva de recorde no Brasil
O cenário para a soja brasileira em 2026/27 é ambivalente. Estudo da Serasa Experian aponta que, se a produtividade repetir o desempenho observado sob o El Niño de 2023/24, a produção poderá ficar 9,7% abaixo de um cenário de clima neutro. A diferença equivale a 17,6 milhões de toneladas e a um impacto potencial de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção, considerando os preços de outubro de 2026.
Já a StoneX elevou sua estimativa de safra para o recorde de 184,95 milhões de toneladas, alta de 0,9% sobre a projeção anterior, diante da perspectiva de melhores produtividades em Mato Grosso, como reportou o CNN Agro, na segunda-feira (2).
Segundo a consultoria, o plantio acelerado e o clima favorável nos primeiros estágios sustentam a revisão. Os levantamentos têm enfoques distintos: a Serasa simula o risco climático, enquanto a StoneX projeta a colheita com base nas condições avaliadas até o momento.
Fonte: CNN