
Dentre as inúmeras transformações que a pandemia de Covid-19 provocou na economia, uma das mais marcantes foi o aumento das entregas urbanas na esteira do comércio eletrônico. O cenário também provocou outro movimento no setor automotivo.
Houve uma explosão nas vendas de vans e furgões no mercado doméstico, o que levou montadoras a renovar linhas já consagradas ou a lançar produtos pela primeira vez no segmento.
Nunca se olhou tanto para o mercado conhecido como “last mile” (última milha), que é o trecho que um veículo de carga percorre entre o estoque de um determinado produto e o cliente final que o comprou pela internet.
Nesse contexto, veículos menores e mais ágeis que caminhões passaram a ser peças fundamentais de um esquema logístico que se tornou multimilionário e, portanto, rico em oportunidades para as montadoras instaladas no país.
Como exemplo de grandeza, o comércio eletrônico brasileiro deverá encerrar 2026 com um faturamento 10% maior ante 2025. Segundo dados da Abiacom (Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce, antiga ABComm), a estimativa é de que o setor alcance R$ 259,8 bilhões em vendas neste ano, com uma base de 97 milhões de consumidores online, que deverão gerar 460,8 milhões de pedidos.
Mais pedidos representam mais veículos comerciais leves nas ruas, assim como aconteceu ao longo dos últimos cinco anos pelo menos. O volume de vendas dos principais modelos do segmento mostra essa evolução refletida no desempenho comercial das montadoras.
Por exemplo: entre 2021 e 2025, de acordo com dados do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) que a Fenabrave divulgou (associação que representa o setor de distribuição de veículos), os emplacamentos do utilitário Renault Master saltaram 63%, com cerca de 57 mil unidades licenciadas no mercado regional.
É claro que dentro desse conjunto estão também unidades configuradas para o transporte de passageiros, mas não há como negar que a performance de vendas positivas não tenha seguido os ventos do comércio eletrônico.
“O aumento das vendas não ocorre apenas devido ao e-commerce, mas da soma das demandas de outros canais, como marketplaces, e também do advento do frete grátis, da entrega rápida. Restrição urbana, profissionalização logística e pulverização dos pedidos também aumentaram as vendas desses veículos”, disse Milad Kalume, consultor da K.Lume.
“Nesse contexto, Mercado Livre, Amazon, Shopee, Temu e outras estão em um embate direto, pressionando a cadeia logística como um todo”, completa.
Outros modelos também viram seus números de vendas subirem, como as versões até 3,5 toneladas de PBT (Peso Bruto Total) do utilitário Mercedes-Benz Sprinter, cujas vendas nos últimos cinco anos cresceram 69%. Fiat Ducato (+15%) e Ford Transit (+28%) também são utilitários que venderam bem nesse intervalo de tempo.
O mesmo aconteceu no segmento de veículos de cargas mais leves. As vendas da Fiat Fiorino cresceram 3,5% entre 2021 e 2025, somando 104,9 mil unidades. O concorrente Renault Kangoo, por sua vez, saiu de uma base de 123 unidades licenciadas, há cinco anos, para 4,4 mil unidades no ano passado.
Independentemente do desempenho comercial, o fato é que todas as marcas parecem querer, de alguma forma, acirrar ainda mais a competição nesse segmento de transporte urbano de cargas. Nessa luta, as empresas disputam as atenções dos frotistas com a oferta de itens inovadores, como o câmbio automático, e também em apetrechos na cabine e, claro, motores mais eficientes e potentes.
A linha 2026 da Sprinter, por exemplo, vem com esse tipo de transmissão de fábrica pela primeira vez. A linha 2027 da Renault Master, que já circula em testes pelo Brasil, deve chegar com novo motor turbodiesel de 170 cavalos, mais potente do que o da linha atual, além de um conjunto de faróis de LED na parte dianteira.
Outro produto recente é o novo Fiat Ducato, que surgiu no mercado no ano passado prometendo um motor 8% mais econômico do que o seu antecessor. A Ford também planeja maior eficiência com a futura Transit City, 100% elétrica.
O mercado aquecido também atraiu novos nomes à concorrência, como é o caso do Toyota Hiace, produzido em Zárate, na Argentina. Lançado no segundo semestre do ano passado, foram vendidas até dezembro 367 unidades. De janeiro a maio deste ano, já são 947 unidades licenciadas no país. Chegaram também concorrentes chineses com veículos eletrificados. É o caso das marcas Foton, JAC e Farizon.
“Só não vende mais porque o financiamento está caro e o número de armazéns logísticos continua abaixo da demanda”, explica David Wong, consultor da Alvarez & Marsal. Ele diz ainda que o crescimento das vendas desses veículos também se deu devido a outras demandas além do e-commerce, como as aplicações vocacionais (ambulâncias, food trucks, etc. e do transporte de passageiros.
Fonte: FolhaPress