
Custos de produção, alimentos caros e tensões comerciais pressionam base rural de Trump; pesquisas apontam risco de desmobilização nas urnas para eleger Câmara e Senado
O desgaste econômico no campo ameaça reduzir a força do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato no país. A combinação de custos elevados de produção, insatisfação com os preços dos alimentos e incertezas comerciais pressiona uma das bases mais fiéis do presidente. As guerras, em especial da Oriente Médio, determinaram o rápido aperto da atividade agropecuária com os custos maiores com fertilizante, diesel e frete.
O risco para os republicanos é que parte desse eleitorado perca o entusiasmo para comparecer às urnas, comprometendo o desempenho do partido na disputa pelo Congresso. Pesquisa da KFF em parceria com a agência de notícias Associated Press identifica essa vulnerabilidade entre eleitores rurais insatisfeitos com a condução da economia em 2026.
A votação de 3 de novembro vai renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 vagas do Senado. O resultado definirá a composição do legislativo e as condições políticas para a segunda metade do mandato de Trump.
Para o Brasil, a reorganização do comércio agrícola representa uma oportunidade de consolidar mercados. Mas a disputa exige distinguir commodities das exportações totais do agronegócio. Segundo levantamento do Insper Agro Global, o Brasil já ultrapassou os Estados Unidos nas vendas externas de commodities agropecuárias e agroindustriais em 2023. Em 2024, exportou US$ 137,7 bilhões nessa categoria, US$ 14,4 bilhões acima dos norte-americanos.
A liderança norte-americana permanecia, naquele levantamento, no conjunto das exportações do agronegócio, sustentada por produtos de maior valor agregado. Em especialidades como alimentos preparados, frutas, vegetais e bebidas, os EUA exportaram US$ 75,5 bilhões em 2024, contra US$ 10,7 bilhões do Brasil.
Assim, o avanço brasileiro nas commodities já é uma realidade; uma eventual ultrapassagem no total das exportações agrícolas depende do desempenho de uma pauta mais ampla e de comparações que utilizem a mesma classificação de produtos. Tal feito deve entrar na agenda bilateral Brasil-EUA no próximo ano, direta ou indiretamente.
Agora, o desafio republicano se concentra em levar a base do agro para as urnas. Eleitores que já foram fatia expressiva de resultado dos republicanos sob o comando de Trump.
Segundo o Pew Research Center, Trump recebeu 69% dos votos dos eleitores que descreveram suas comunidades como rurais em 2024, contra 29% de Kamala Harris (oponente que concorria pelo Partido Democrata). Em 2020, havia conquistado 65%, e, em 2016, 59%.
A vantagem sobre o adversário democrata aumentou de 25 para 40 pontos percentuais entre a primeira e a terceira disputa presidencial do republicano. O levantamento considera moradores de comunidades rurais, não exclusivamente produtores agropecuários.
Agora, a insatisfação econômica ameaça a mobilização do eleitorado “rural”, que pode morar e/ou estar inserido na cadeia produtiva americana. Na pesquisa KFF/AP, publicada em setembro, 27% dos eleitores rurais republicanos desaprovavam a atuação de Trump na economia. Nesse grupo, 59% afirmavam ter certeza absoluta de que votariam nas eleições de meio de mandato, ante 79% entre os que aprovavam sua gestão econômica.
A diferença de 20 pontos revela uma vulnerabilidade para o partido, sem representar, por si só, uma transferência de votos aos democratas. O estudo ouviu 2.241 eleitores registrados em áreas rurais entre 12 e 24 de agosto.
Entre os agricultores, os custos ajudam a explicar o desânimo. O indicador de confiança da Universidade Purdue e do CME Group caiu de 135 pontos em agosto para 123 em setembro. Os insumos mais caros foram apontados como a principal preocupação por 52% dos entrevistados, um recorde da pesquisa. Enquanto 35% esperavam piora na situação financeira de suas propriedades nos 12 meses seguintes, apenas 22% previam melhora.
A agropecuária está presente nos 50 estados norte-americanos, conforme os registros do Censo Agropecuário de 2022 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA. Uma de suas principais concentrações fica no centro do país. Na definição da Biblioteca Nacional de Agricultura do USDA, o Cinturão do Milho abrange Illinois, Indiana, Iowa, Minnesota, Nebraska e Ohio — embora outras delimitações incluam estados vizinhos.
O peso do custo de vida também aparece nos supermercados, especialmente no balcão de carnes e tem direta relação entre campo, cidade e, mais recentemente, entrou no cardápio do debate político.
Na projeção divulgada em outubro, o Serviço de Pesquisa Econômica do USDA estimava alta de 8,7% nos preços médios da carne bovina e de vitelo em 2026, bem acima dos 2,8% previstos para o conjunto dos alimentos. Apesar da pressão na média anual, os preços dessas carnes recuaram 1,3% em setembro frente a agosto.
A oferta restrita ajuda a explicar esse quadro. Os Estados Unidos começaram 2026 com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, segundo o serviço de estatísticas do USDA. Foi o menor estoque de janeiro desde 1951, conforme análise da Universidade do Arkansas baseada em dados do departamento.
O levantamento de julho mostrou uma pequena recuperação sobre o mesmo mês de 2025, mas a produção de carne bovina continuava limitada: o USDA projetava volumes inferiores aos do ano anterior até o fim de 2026.
Na frente comercial, as tarifas acrescentam tensão à relação entre o governo e os produtores que dependem de compradores externos. Uma análise publicada pela Brookings Institution em outubro deste ano associa o enfraquecimento republicano em estados agrícolas à combinação de tarifas, perda de compras chinesas e aumento dos custos de produção.
O diagnóstico aponta que a frustração pode se traduzir em abstenção entre republicanos rurais.
O histórico mostra a exposição do setor às retaliações comerciais. Estudo do próprio USDA calculou perdas superiores a US$ 27 bilhões nas exportações agrícolas norte-americanas entre meados de 2018 e o fim de 2019, durante a primeira guerra tarifária de Trump. A China respondeu por aproximadamente 95% dessas perdas.
Apesar de os valores se referirem ao primeiro mandato e não medirem os efeitos das tarifas atuais, mostram que há um desgaste inerente quando se aplica barreira comercial como medida de proteção de varejo doméstico. O risco embutido no controle de importação, quando um país depende da oferta externa, pode frustrar setores econômicos que dependem de matérias-primas competitivas.
O agro é um deles. Desde o início de 2026, associações de produtores alertaram o descontentamento com a política agrícola do USDA, portanto do governo Trump. Há poucos dias da eleição, a resposta do governo inclui pagamentos diretos aos agricultores. Ontem, o presidente dos Estados Unidos informou que irá liberar US$ 15 bilhões para atenuar eventuais perdas com quebras de safra e custeio de produção.
Além do valor, na última semana de outubro, também anunciou outros US$ 13,7 bilhões em benesses para financiamento agropecuário. A soma do pacote pré-eleições quase chega a US$ 29 bilhões, sem detalhes a respeito da liberação dos recursos.
Soma-se, ainda, o programa Farmer Bridge Assistance, que prevê US$ 12 bilhões, dos quais US$ 11 bilhões destinados a pagamentos de transição para produtores de culturas elegíveis e US$ 1 bilhão reservado a outras commodities. No conjunto, o USDA estima que os pagamentos diretos federais ao setor alcancem US$ 47,4 bilhões em 2026, alta de 69,8% sobre 2025, incluindo programas regulares e assistência extraordinária.
Fonte: CNN