Data Mercantil

Com guerra do Irã e Copom, fundos de renda fixa perdem R$ 17 bi

O atual cenário macroeconômico tem elevado a volatilidade de um ativo que visa justamente o contrário: a previsibilidade de ganhos. No mês passado, investidores viram fundos de renda fixa oscilarem de preço e alguns apresentarem até rentabilidade negativa.
Em junho, a captação líquida dos fundos de renda fixa como um todo estava negativa em R$ 17,2 bilhões até o dia 29, apontam dados da Anbima (associação das entidades dos mercados financeiro e de capitais). Ou seja, houve mais dinheiro sacado que investido na modalidade. Apenas desde a mais recente reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), o patrimônio líquido se reduziu em R$ 45 bilhões.
A saída reverte a tendência do início do ano. Em maio, houve aporte líquido de R$ 10,4 bilhões, após retirada de R$ 19,3 bilhões em abril. De janeiro a março, porém, houve captação líquida acumulada de R$ 130,3 bilhões.
Nas últimas semanas, com as incertezas em torno do conflito no Irã e as decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos, o mercado aumentou a precificação de juros futuros, que são as apostas do mercado financeiro de qual será a Selic nos próximos meses e anos. E isso impacta todo o mercado, em especial os títulos de renda fixa já emitidos, que perdem valor.
Considerando os fundos categorizados pela Anbima, a classe rendeu 0,97%, em média, em junho. O número fica abaixo do 1,01% mensal considerando a rentabilidade acumulada em 12 meses.
“No mercado brasileiro, o investidor é mais sensível ao preço da cota. Quando um fundo vai bem, ele quer entrar, e, quando o fundo vai mal, ele acaba saindo. É uma sensibilidade ao retorno passado, dos últimos 12 meses”, diz Guilherme Baran, gestor de renda fixa e multimercados da SulAmérica Investimentos, sobre a sua estratégia.
O executivo afirma que seus fundos estavam posicionados em determinados títulos prefixados apostando em um fim mais rápido do conflito no Irã.
“Por outro lado, as decisões dos bancos centrais neste ano não foram ruins para nós porque estávamos aplicados em juros curtos”, completa Baran –estar aplicado em juros curtos significa que o fundo estava com títulos de curta duração em sua carteira. Esses papéis tendem a se beneficiar em um cenário de corte de juros, como foi o caso da Selic em junho.
Em 17 de junho, o Copom reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual pela terceira vez seguida, de 14,5% para 14,25% ao ano, e deixou os próximos passos em aberto.
“A indústria sofreu bastante no mês passado. A comunicação do Copom levantou muita dúvida”, diz Pedro Claudino Silva, analista da Empiricus. Segundo os dados da casa de análise, a diferença entre a rentabilidade dos fundos de renda fixa e o CDI aumentou depois da decisão do BC, mas se reduziu com a divulgação da ata, que abrandou a aversão a risco.
O comunicado da decisão foi lido como confuso pelo mercado, que passou a apostar em juros e inflação maiores. Para conter a alta nos juros futuros, o Tesouro Nacional reorganizou seus leilões de títulos públicos. O BC, por sua vez, injetou liquidez no mercado de câmbio à vista em meio à disparada recente das taxas futuras.
Na quinta (2), o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, demonstrou preocupação com a taxa real dos títulos públicos indexados à inflação (NTN-B), que supera 8% ao ano, mas afirmou que o Tesouro está preparado para atuar no mercado caso considere necessário preservar a liquidez.
“Um Copom indeciso, ou não tão claro, traz especulação, e esse é o melhor momento de sair e entrar no mercado de juros sem prejuízo e com facilidade. É bom de operar, há comprador e vendedor”, diz o analista de renda fixa da Eleven Financial, Otávio Faria.
No entanto, enquanto operadores de mesa de juros, especialmente de tesourarias de grandes bancos, prosperam, o pequeno investidor se assusta ao ver variações diárias no valor da cota de seu fundo. Muitos, aliás, chegam a vendê-la com prejuízo, com medo de vir a perder mais.
“O investidor que compra renda fixa quer tranquilidade, ele não está habituado a volatilidade, fica desesperado e sai. Prefere prejuízo ao trauma e vai para CDBs”, diz Faria.
Nos três dias após o Copom, os fundos de renda fixa perderam R$ 36,6 bilhões do seu patrimônio líquido. No dia da ata da decisão, R$ 19,6 bilhões voltaram.
Após a ata da reunião deixar o mercado menos apreensivo, os juros recuaram, movimento reforçado pelo arrefecimento do conflito no Irã.
Porém, analistas apontam que as eleições e o risco fiscal ainda mantêm as taxas elevadas e os operadores em estado de alerta.
“A guerra deu lugar à preocupação fiscal e isso ajuda a curva a abrir [mercado precifica juros futuros mais altos]. Ela melhorou em relação ao período mais tenso da guerra, mas segue ruim”, diz Guilherme Almeida, diretor de renda fixa da Suno Research.
Baran, da SulAmérica, diz que optou por reduzir a quantidade de ativos arriscados em seus fundos. “Estamos mais táticos, sem muita alocação. Os efeitos da guerra ainda estão sendo maturados”, diz o gestor.

Fonte: FolhaPress

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