Data Mercantil

Cobre em alta encobre crise nas minas do Chile e ameaça oferta global

Acidentes, eventos climáticos e deterioração do minério limitam a produção do maior fornecedor mundial, apesar das cotações recordes.

Os preços recordes do cobre contrastam com a deterioração das condições de produção no Chile. O maior produtor mundial enfrenta acidentes fatais e interrupções climáticas, enquanto o envelhecimento das minas exige investimentos crescentes para sustentar a oferta.

O país responde por mais de 20% do cobre extraído no mundo. Seus problemas ampliam a preocupação com o abastecimento justamente quando a expansão de data centers e das redes elétricas impulsiona a demanda.

As limitações da mineração chilena estão entre os temas que acompanham as negociações de contratos para 2027 durante a LME Week, em Londres. Embora os fluxos comerciais ligados a tarifas tenham sido o principal motor da alta dos preços neste ano, as dificuldades de produção acrescentam pressão ao mercado.

Acidentes e clima extremo interrompem operações

Pelo menos sete trabalhadores morreram em minas chilenas no último mês, conforme o material. Entre os episódios está uma avalanche na operação El Teniente, da Codelco.

Chuvas intensas e nevascas têm interrompido atividades e afetado a infraestrutura de transporte. A aproximação de outra tempestade levou autoridades a recomendar que as mineradoras considerem suspender operações.

A sequência de eventos expõe as limitações de uma indústria desenvolvida em torno das condições historicamente áridas do país. O fortalecimento do El Niño acrescenta incerteza, enquanto temperaturas mais altas podem deslocar massas de gelo em áreas de grande altitude.

“Há claramente uma forte influência das mudanças climáticas e uma capacidade limitada do setor de mineração de se adaptar”, afirmou Cristian Cifuentes, chefe de pesquisa do centro de estudos sobre cobre Cesco.

Minas envelhecidas exigem mais esforço para produzir

Os problemas climáticos se somam à deterioração das jazidas. As cavas ficam mais profundas e o teor do minério diminui, obrigando as empresas a movimentar e processar mais material para obter a mesma quantidade de cobre.

Novos projetos e expansões não têm compensado integralmente esse desgaste. A dificuldade atinge a Codelco, mas alcança produtores privados com maior capacidade financeira.

A oferta fica mais difícil de ampliar à medida em que as operações enfrentam condições geológicas mais complexas. Nesse cenário, parte crescente dos investimentos serve para preservar a produção existente.

Projeções divergem sobre a intensidade da queda

O ministro das Finanças do Chile, Jorge Quiroz, descreveu o quadro como uma “grande recessão mineradora”. Sua previsão é de queda de cerca de 7% na produção em 2026, seguida por recuperação parcial no próximo ano.

A comissão estatal Cochilco trabalha com uma retração menor. Já a CRU Group sinaliza uma revisão para baixo de suas estimativas, diante dos problemas operacionais recentes.

A consultoria considera que a escassez de grandes projetos novos limita a velocidade da retomada.

“Não é porque somos pessimistas, mas porque não temos uma razão técnica para esperar uma recuperação mais rápida”, afirmou Nicolás Muñoz, analista da CRU.

Codelco muda foco para produtividade e rentabilidade

A Codelco ocupa posição central na crise. A estatal tenta estabilizar a produção após anos de queda e dificuldades nos projetos destinados à modernização de suas minas.

Sob a presidência de Bernardo Fontaine, a companhia passou a priorizar produtividade e rentabilidade, em vez de perseguir a recuperação dos volumes históricos. A estratégia pode envolver redução da força de trabalho e cortes de custos.

A dívida elevada e a fragilidade financeira dificultam os investimentos necessários. Ao mesmo tempo, a empresa investiga possíveis irregularidades nos números de produção de 2024 e 2025 e busca recuperar bônus pagos após a correção de dados superestimados.

Produtores privados enfrentam interrupções e conflitos trabalhistas

Escondida, da BHP, e Collahuasi, controlada por Anglo American e Glencore, registraram fortes quedas de produção em agosto. No caso de Collahuasi, líderes sindicais relacionaram o desempenho, entre outros fatores, ao clima e à manutenção.

A Antofagasta apresentou crescimento no terceiro trimestre, embora abaixo das expectativas dos analistas.

As relações trabalhistas continuam sendo outra fonte de incerteza. Um acordo de última hora evitou uma greve em Escondida, enquanto funcionários da mina Centinela retornaram ao trabalho após uma paralisação.

Na mina Spence, da BHP, uma disputa judicial opõe a empresa ao sindicato. A mineradora considera ilegais determinadas paralisações; a entidade sindical afirma que o conflito envolve preocupações antigas com saúde e segurança.

Oferta limitada sustenta perspectiva para o cobre

As dificuldades de abastecimento levaram a CRU a elevar sua projeção para o preço médio do cobre em 2027 para cerca de US$ 6,20 por libra-peso.

A valorização, porém, não resolve automaticamente os obstáculos das mineradoras. A recuperação depende da execução dos projetos privados e dos investimentos estruturais da Codelco, além de tecnologias capazes de melhorar o aproveitamento dos recursos existentes.

Cifuentes considera que a produção chilena pode voltar a crescer, mas em ritmo insuficiente para preservar sua participação histórica no mercado mundial.

“O mercado terá de se acostumar com um Chile estagnado e com uma participação menor, em vez de um Chile em queda livre”, afirmou.

Fonte: IstoéDinheiro

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