Data Mercantil

Chile: Agenda de Kast anima mercado e chama atenção de economistas

O governo de esquerda de Gabriel Boric deixa o Palácio de La Moneda para abrir caminho à agenda liberal de José Antonio Kast Rist a partir de março. Kast foi eleito presidente do Chile com 58% dos votos, disputando contra a candidata da situação Jeannette Jara.

Trabalhado como candidato pró-mercado e pró-negócios, o político de direita venceu o pleito com um discurso familiar, semelhante de certo modo ao de Javier Milei da Argentina: corte de gastos para conter o crescimento da dívida, desregulamentação e flexibilização de leis trabalhistas.

Olhando para os negócios, Kast propõe em sua base programática:

“O mercado está alinhado com o presidente [eleito Kast]. Suas propostas na frente regulatória terão mais apoio, não são motivadas por ideologias, não são controversas. A regulamentação tem sido uma restrição para a economia chilena”, pondera Pedro Quintanilla, estrategista sênior de Mercados Emergentes no UBS Global Wealth Management.

“A desregulamentação corre bem quando feita num contexto que faz sentido, geralmente funciona. Não é uma solução milagrosa. Muitas vezes é usada para impulsionar a fiscalidade, o que não é sustentável e tem um custo. Não é um investimento. Tem que ser voltada a criar um ambiente sustentável para os negócios.”

Segundo o analista, enquanto o Chile apresentava um crescimento robusto em torno de 5%, com a alta de suas commodities nos anos 2010, as restrições regulatórias não preocupavam o empresariado chileno.

Mas com a queda no desempenho da economia chilena, o impacto da burocracia começou a ficar mais evidente e incomodante.

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Kast apresentou uma saída nesse sentido, o que cativou o apoio do mercado.

Corte de gastos

Mas o que mais chama atenção em seu programa é o corte bilionário de gastos do governo, projetado em US$ 6 bilhões para os primeiros 18 meses de governo.

“Nosso objetivo é alcançar o equilíbrio fiscal e deter a espiral de endividamento público”, diz trecho da base programática de Kast.

Os economistas ouvidos pela reportagem sublinham o fato de que ainda não é totalmente claro onde serão realizados os cortes. No programa, a gestão Kast propõe:

“Acredito que em alguma medida consiga avançar em consolidação fiscal, mas nessa magnitude que está prometendo, que gostaria de fazer no curto prazo não”, observa Patrícia Krause, economista-chefe para a América Latina da Coface.

“Assim como a gente [no Brasil], também existe a rigidez dos gastos, de 85% a 90% dos gastos públicos, então não é tão fácil assim de ser implementado, fora que o orçamento para 2026 foi colocado pelo governo anterior. Acredito que poderia haver espaços para melhorias e até melhora no resultado fiscal, até para o crescimento de receita”, pontua, destacando a valorização recente de alguns minerais extraídos no país.

Francisco Castañeda, economista e professor da Universidade Central do Chile, ressalta que os técnicos da gestão Kast já avaliam estender o calendário previsto na base programática. Castañeda destaca ainda outro desafio que a agenda do futuro presidente pode enfrentar: o Legislativo.

Kast não controla a maioria do Congresso, o que leva Pedro Quintanilla a acreditar que parte de seus planos de corte de gastos e flexibilização de políticas trabalhistas serão “diluídos”.

Mas se a agenda avançar com transparência e eficiência, Castañeda aponta para uma potencial consolidação no longo prazo.

“Se o ajuste for percebido como eficiência e foco, ele pode ganhar legitimidade. Se for percebido como um corte cego ou ideológico, a resistência social aumenta e a probabilidade de implementação diminui (e o mercado descontou isso)”, pontua o professor de Economia.

Ainda assim, para a economista da Coface esse ponto do programa de Kast é um dos principais recados a ser observado e adotado sobre o Brasil.

“Independente do que deveria estar um debate político nesse ano, independente de quem vier a ser eleito, a gente sabe que está nessa trajetória crescente de endividamento, que isso deveria ser revisto. Então, acredito que na parte fiscal, fica essa lição de ajuste fiscal, que é sempre algo mais necessário.”

Família

José Antonio Kast Rist vem de uma família com tradição na política e economia chilena. O irmão mais velho, Miguel Kast foi ministro do Trabalho e presidente do banco central chileno durante o regime de Augusto Pinochet. Economista neo-liberal formado sob os ensinamentos de Milton Friedman, Miguel foi um dos “Chicago Boys”. José Antonio não é um membro oficial do grupo, mas abraçou sua agenda econômica.

Expectativa

Se as propostas vingarem, Kast projeta que o Chile irá retomar seus anos dourados de crescimento econômico robusto.

“Os mercados estão positivos, […] a princípio, acredito que tem um voto de confiança dos mercados. Ele está indo nessa linha de ir para uma taxa de crescimento de 4% e levar a taxa de investimento a chegar nos 30% do PIB [Produto Interno Bruto]”, indica Krause.

“Tanto nessa questão do mercado de trabalho, de flexibilização, como também, fala em reduzir o imposto para as empresas de 27% para 23%, isso poderia ajudar a atrair investimentos. E essa questão de regulamentação também, a questão do setor de mineração, tem um pipeline importante de investimentos, principalmente para a energia e para a mineração, e isso ajudaria”, elenca.

Para que o projeto avance, Castañeda defende moderação.

“Sendo realista, [o governo] deve primeiro obter “vitórias rápidas” (redução de burocracia, licenças, digitalização, compras públicas) e, depois, [avançar com] reformas mais difíceis (cortes estruturais e trabalhistas)”, pontua o economista da Universidade Central do Chile.

Ao olhar para a revisão minuciosa dos gastos por programa, eliminação de duplicidades, focalização de subsídios e melhoria da eficiência, Castañeda opta que não seja um corte radical como o de Milei.

Esse é o caminho, segundo ele, para se chegar a um “pacto político e territorial com votos garantidos no Congresso com compromissos verificáveis (metas fiscais, avaliação de programas)”.

No fim, como o mercado deve reagir? “No início, normalmente recompensa o sinal (um menor risco fiscal se traduz em mais investimento). Mas rapidamente deve passar para o ‘modo concretização’: se houver conflito social, os números forem pouco confiáveis ou os cortes forem mal projetados, o prêmio de risco pode subir. É por isso que ‘onde cortar’ importa mais do que o título dos ‘US$ 6 bilhões'”, conclui o professor.

Fonte: CNN

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