
A fabricação de carros elétricos emite até três vezes mais gases do efeito estufa em relação à manufatura de veículos a combustão, fazendo com que automóveis movidos a bateria precisem percorrer distâncias maiores para compensar a diferença e trazer benefícios ao meio ambiente.
É o que aponta o estudo “Do berço ao portão: Pegada de carbono da produção de veículos leves fabricados no Brasil”, produzido pela FGV (Fundação Getulio Vargas) e pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ao qual a reportagem teve acesso com exclusividade.
A pesquisa avaliou o ciclo de vida da indústria automobilística e abrangeu desde a extração da matéria-prima até o fim da manufatura nas fábricas. A análise detalhou as emissões para os segmentos hatch, sedã e SUV conforme quatro tecnologias de propulsão:
- combustão: flex ou movido apenas a gasolina, etanol ou diesel;
- híbrido: motor a combustão e motor elétrico auxiliar, com recarga na frenagem;
- híbrido plug-in: motor a combustão e motor elétrico auxiliar, com recarga na tomada;
- elétrico: movido apenas a bateria.
As conclusões apontam que a fabricação de um SUV a combustão gera, em média, 5.366 kg de CO2e (dióxido de carbono equivalente), a medida padrão que considera diferentes gases do efeito estufa. Já a manufatura de um veículo elétrico do mesmo segmento emite mais que o dobro: são 12,5 mil kg de CO2e.
No caso de um sedã, a disparidade é ainda maior: são 4.745 kg de CO2e no modelo a combustão, contra 16,2 mil kg de CO2e na versão elétrica. Veja abaixo os valores para cada categoria.
O estudo calculou as emissões de fabricação com base nos veículos mais vendidos no país em 2023, segundo lista da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores. A pesquisa contou com dados de sete montadoras (General Motors, Honda, Jaguar Land Rover, Nissan, Stellantis, Toyota e Volkswagen), além de empresas que abastecem a indústria, como Bosch, Braskem, Gerdau e Usiminas.
Os pesquisadores usaram as especificações para agregar a pegada de carbono em carros representativos do mercado brasileiro. Assim, os números apresentados dizem respeito a automóveis médios que ilustram o cenário atual no país.
Juliana Picoli, pesquisadora e gestora de projetos do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, afirma que o estudo pode ajudar a gerenciar as emissões da fabricação de veículos, ao identificar as etapas onde há mais poluição.
“Existia uma carência de dados primários sobre as emissões, com muitos estudos de avaliação de ciclos de vida usando ferramentas internacionais”, diz. O trabalho recebeu financiamento da Fundação de Apoio da Universidade Federal de Minas Gerais e faz parte do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), do governo federal.
O inventário das emissões considera os diferentes componentes presentes nos carros, como motor e carroceria. Em todas as categorias de veículos, mais de 90% da poluição gerada na manufatura ocorre na fase de extração e pré-processamento da matéria-prima, puxada por aço, alumínio e plásticos. No caso dos veículos elétricos, a fabricação da bateria responde, sozinha, por cerca de metade da pegada de carbono, diz Picoli.
Por outro lado, um automóvel eletrificado emite menos CO2 ao longo da vida útil se for abastecido com energia renovável. Para detalhar essa diferença, a pesquisa calculou o chamado ponto de “break-even”, que representa a quilometragem a partir da qual um veículo elétrico passa a ter emissões acumuladas inferiores a outras alternativas.
Conforme o estudo, um SUV elétrico precisa percorrer cerca de 93 mil km para igualar as emissões de seu equivalente flex, enquanto um híbrido plug-in do mesmo segmento só atinge a igualdade com 177 mil km rodados. Já a equivalência em relação a um veículo abastecido apenas com etanol é alcançada por volta dos 400 mil km.
“O veículo elétrico, por ter maior massa, materiais mais sofisticados e bateria, acaba demandando uma rodagem maior. Então, esse payback, de se pagar do ponto de vista ambiental, pode levar alguns anos”, afirma Joaquim Seabra, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e um dos autores do estudo.
A pesquisa também identificou que carros fabricados no Brasil podem ter pegada de carbono até 30% menor em relação a veículos fabricados no exterior, por conta da maior participação de renováveis na matriz elétrica brasileira. Porém, a vantagem varia conforme os modelos de automóveis e pode diminuir ou até se anular com perdas de materiais ao longo da cadeia.
“Estamos um passo na frente, mas outros países estão mitigando as emissões rapidamente. Por isso, é importante usar essa janela de oportunidade agora para atrair ainda mais investimentos e explorar, no bom sentido, as condições nacionais de energia renovável”, diz Seabra.
Fonte: FolhaPress