Data Mercantil

BC e Fed iniciam reuniões enquanto mercado revisa projeções após guerra

Analistas veem choque inflacionário causado pelo conflito no Oriente Médio

A guerra no Oriente Médio virou de pernas para o ar os cenários projetados pelo mercado para 2026. E é em meio a um momento de revisões de estimativas que o BC (Banco Central) e o Fed (Federal Reserve System) iniciam suas respectivas reuniões de política monetária nesta terça-feira (28).

As expectativas do mercado giram em torno de um corte mais brando que o esperado anteriormente por aqui, de 0,25 ponto, levando a Selic a 14,5% ao ano; e manutenção dos juros nos Estados Unidos.

“O Copom volta a se reunir nos dias 28 e 29 de abril, com um pano de fundo de incerteza muito elevada sobre a resolução da guerra no Oriente Médio. Desde a sua última reunião, o comitê viu apreciação significativa do real, impulsionada tanto por termos de troca (dada a elevação do preço do petróleo) quanto pela continuidade da entrada de fluxos externos de capital, especialmente para o mercado acionário brasileiro”, diz relatório do Itaú BBA desta segunda-feira (27).

“Por outro lado, os dados correntes de inflação trouxeram surpresas importantes e as expectativas de mercado para o IPCA tiveram alta expressiva (consumindo parte do orçamento existente para redução da taxa Selic, por deslocar mecanicamente para baixo as taxas de juros reais).”

As deliberações ocorrem entre este e o próximo dia, de modo que as decisões sobre juros serão anunciadas na quarta-feira (29).

No começo de abril, um relatório do Itaú BBA já alertava que bancos centrais ao redor do mundo deveriam manter juros mais elevados em decorrência do choque causado pela guerra.

Essa posição cautelosa por parte do mercado se reflete nas projeções e posições montadas pelos investidores.

Em 27 de fevereiro, um dia antes de o conflito estourar, 66% do mercado apostava em corte de 0,5 ponto percentual nesta reunião, segundo os contratos de opção de Copom (Comitê de Política Monetária) negociados na B3. Outros 23% previam corte de 0,75 ponto, enquanto 3% acreditavam em queda de 1 ponto. 3,5% eram os que bancavam corte de 0,25.

De lá para cá, o cenário virou: na sexta-feira (24), último dia com informações disponíveis até a publicação da matéria, 86,35% dos investidores colocavam suas fichas na redução mais branda, de 0,25 ponto. Outros 10,5% creem até em manutenção da taxa como está. Menos de 3% previam os cortes de maior magnitude.

O HSBC previa anteriormente corte de 0,5 ponto nesta reunião, e passou a trabalhar com a visão de uma política monetária mais cautelosa após a última reunião do Copom.

“Preços globais excepcionalmente altos do petróleo, incerteza em torno da retomada do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz e a ausência de uma resolução duradoura para o conflito sustentam essa mudança em nossa perspectiva de taxas de curto prazo. Desde a última reunião, a curva de juros se movimentou em função de notícias relacionadas ao Oriente Médio, mas a precificação para a decisão de 29 de abril permaneceu relativamente estável”, escreve o head de Brazil Economics Research do HSBC, Daniel Lavarda.

O economista destaca a postura cautelosa enfatizada pelo Copom para “navegar por este período de grande incerteza”.

“Como o BCB observou, o ritmo de novos cortes — e a magnitude geral do processo de flexibilização — dependerá criticamente de ‘novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio'”, diz Lavarda, ressaltando que pouco se observou de progresso nas negociações sobre o conflito.

Até a metade final de março, a taxa básica Selic estava no maior patamar em duas décadas. Com o corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária do BC passou a trabalhar com taxa de 14,75% ao ano.

O time de Research da XP destaca que “o fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom aumentou os riscos para o cenário de inflação”.

“Os preços do petróleo continuam pressionados, o IPCA e suas medidas de núcleo subiram, as expectativas inflacionárias de médio prazo se deterioraram e a atividade doméstica voltou a ganhar tração. A apreciação da taxa de câmbio vem atuando como ‘amortecedor'”, diz o relatório da XP.

Choque inflacionário

A XP alerta que as “expectativas de médio prazo em alta exigem cautela adicional”, ressaltando que os “choques inflacionários são mais preocupantes em uma economia sem ociosidade”.

“A inflação continuará pressionada este ano em função do aumento dos custos globais de energia, dos estímulos à demanda doméstica e de condições climáticas possivelmente adversas. A apreciação cambial apenas atenua essas pressões”, indica relatório da casa.

“Em particular, no caso dos choques de oferta, a literatura econômica recomenda que os bancos centrais acomodem o efeito inflacionário primário e atuem sobre os efeitos de segunda ordem — isto é, os repasses para preços não diretamente afetados. No atual contexto de hiato do produto positivo, a probabilidade desses efeitos secundários aumenta”, pontua.

Nesse sentido, o Itaú avalia que as projeções de inflação do Copom devem subir para 4,4% em 2026 (ante 3,9% anteriormente) e aumentar para 3,4% no horizonte relevante — período futuro que o BC toma como referência para suas decisões de política monetária.

Desse modo, a deterioração das expectativas de inflação e a resiliência da atividade econômica levaram o time de Research do Goldman Sachs a elevar sua projeção da taxa Selic para 13,25% a o final de 2026, um aumento de 0,25 ponto.

“Diante de um choque do petróleo mais prolongado e profundo, o equilíbrio entre as políticas monetárias pode se tornar mais complexo, com o foco potencialmente se deslocando da inflação para o crescimento”, diz o banco de investimento norte-americano em nota.

Trajetória dos juros no Brasil

Apurado pelo próprio BC, o boletim Focus aponta que a expectativa mediana do mercado é para corte de 0,25 ponto nesta reunião.

Chama atenção também na pesquisa que, apesar de os investidores verem espaço para mais quedas de juros ao longo do ano, as expectativas têm se deteriorado, com o mercado enxergando cada vez mais os juros básicos do país num patamar maior que o esperado anteriormente.

A XP projeta a taxa Selic em 13,5% ao final do ano, esperando, na sequência do corte desta semana, duas reduções de 0,5 ponto em junho e agosto, “à medida que as tensões no Oriente Médio se dissipem”.

Cenário dos EUA

A ferramenta CME Fedwatch aponta que 100% do mercado conta com manutenção dos juros nos EUA.

A inflação continua pressionada, e os efeitos da guerra no Oriente Médio só pressionam ainda mais o Fed, segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

“Os dados de março já mostraram um grande impacto [da guerra]: o impacto de energia, em preços de gasolina, diesel e energia em geral, que geram também efeitos em outros produtos, em outros serviços. Então, se o cenário inflacionário já se mostrava um tanto quanto apertado, ou seja, reduzindo a possibilidade para cortes de juros, o conflito no Oriente Médio só exacerba isso”, pontua Castro Alves.

Esta deve ser a última reunião de Jerome Powell à frente do Fed. O atual chairman do banco central norte-americano foi indicado por Donald Trump em seu primeiro mandato, e foi mantido no comando pelo democrata Joe Biden.

O momento é de pressão: Trump vem atacando o Federal Reserve por manter uma política monetária restritiva, enquanto seu indicado para assumir o posto de Powell deve assumir em breve.

O ex-diretor do Fed Kevin Warsh, apontado por Trump à presidência do BC dos EUA, vem prometendo que irá manter a independência da autoridade monetária, mas deixou em aberto sua opinião em relação à trajetória das taxas de juros e afirmou que é “cético” sobre a orientação futura do BC dos Estados Unidos.

Mas o cenário de guerra fez até críticos das altas taxas de juros a repensarem a posição do Fed, como o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que defendeu que o Federal Reserve deveria “esperar” antes de reduzir as taxas de juros, à medida que o conflito continua.

“Acho que as taxas deveriam ser reduzidas? Eventualmente. Acho que agora temos que esperar para ver”, declarou Bessent à Semafor, acrescentando que, em meio à guerra, o Fed está “fazendo a coisa certa ao observar e aguardar”.

“É esperado que o tom do último comunicado sob a presidência de Jerome Powell seja de cautela, indicando pausa mais longa. Powell deve usar seu espaço na coletiva de imprensa para reforçar seus feitos na cadeira e relembrar que considera a política monetária atual em território entre neutro e ligeiramente restritivo, reduzindo o espaço de novos cortes agressivo”, observa Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

Fonte: CNN

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