Data Mercantil

Alta da dívida gera pressão de aliados para que Lula defenda ajuste fiscal na campanha

A escalada da dívida pública intensificou o apoio de petistas para que o presidente Lula (PT) assuma publicamente o compromisso de manutenção de um arcabouço fiscal em um eventual quarto mandato.
O impacto dos números divulgados na sexta-feira (31) precipitou o debate entre articuladores da pré-campanha do presidente. Ao longo de três anos e meio do governo Lula 3, o estoque da dívida bruta saltou 10,2 pontos percentuais, para 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em junho deste ano, alcançando R$ 10,8 trilhões.
Antes restrita a uma ala do PT, a ideia de sinalização pública de Lula em favor do ajuste vem ganhando adesões. Aliados do presidente afirmam que Lula está cada vez mais convencido da necessidade de um ajuste mais rigoroso nas contas públicas a partir do ano que vem.
Um grupo de pessoas no entorno do presidente defende que essas propostas sejam colocadas em prática já neste ano, depois da eleição, caso o chefe do governo seja reeleito.
Outra ala de aliados que não está no círculo mais próximo de Lula defende que ele tenha reuniões presenciais com representantes do mercado financeiro para acalmar os operadores.
Em reunião na manhã desta terça-feira (4), Lula aprovou as diretrizes do plano de governo. Não constará a expressão “ajuste”. A ideia será falar em compromissos de controle da inflação, associado à melhoria da trajetória de resultados fiscais, “com vistas à redução da taxa de juros e consequente atração de investimentos privados”.
A expectativa é que Lula reafirme a promessa de responsabilidade fiscal ao discursar no lançamento oficial de sua candidatura, no próximo dia 16 em São Paulo. Sem usar a palavra “ajuste”, a ideia é que ele use termos associados à organização da casa.
A repercussão negativa no mercado financeiro nos últimos dias, além do destaque dado aos números no noticiário, deixou aliados do presidente preocupados neste início da campanha eleitoral com o risco de alimentar uma piora dos preços de ativos, como o dólar e os juros.
A trajetória de aceleração do endividamento público será um tema de pressão por candidatos de direita durante a disputa, na tentativa de colocar o carimbo do governo Lula como fiscalmente irresponsável. Investidores, economistas e gestores também têm manifestado preocupação com o futuro do endividamento do país sob a gestão do atual presidente.
Na sexta-feira, o Banco Central divulgou números ruins do resultado da dívida bruta, que saltou 0,9 ponto percentual do PIB (Produto Interno Bruto) num único mês -valor acima do esperado. O estoque fechou o mês de junho em 81,9% do PIB ante 81% no mês anterior.
Trata-se do maior patamar desde 2021, durante a pandemia da Covid-19, e um incremento de 10,2 pontos percentuais ao longo de três anos e meio do governo Lula 3.
Escalado para essa interlocução no mercado financeiro e com representantes do agronegócio, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, encomendou dois estudos técnicos para os secretários Rogério Ceron (Executivo) e Débora Freire (Política Econômica) sobre o cenário para apresentar a Lula.
Com o apoio do presidente do PT, Edinho Silva, Durigan foi encarregado de falar ao mercado após reação negativa a declarações à Folha de S. Paulo do coordenador de programa de governo, José Sérgio Gabrielli, afirmando que o ajuste fiscal não é o único instrumento de contenção da inflação.
Ex-ministro da Fazenda e candidato ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad telefonou a Gabrielli para reclamar da entrevista. Além de se queixar de não ter sido ouvido sobre as propostas do plano de governo para a economia, Haddad afirmou que Gabrielli ajudava o principal adversário de Lula, Flávio Bolsonaro (PL), ao afugentar parte do empresariado e de agentes do mercado com suas declarações.
Ainda segundo relatos, Haddad disse que a política econômica conduzida por ele tinha garantido crescimento com responsabilidade fiscal. As queixas de Haddad chegaram a Lula, que desautorizou Gabrielli durante reunião com a coordenação da pré-campanha.
Em junho, Lula determinou que Durigan fosse consultado sobre o plano de governo e que o programa fosse submetido a Haddad antes de sua divulgação. Ainda de acordo com quatro participantes da reunião, Lula disse que quem define a política econômica é ele próprio.
A repercussão das declarações de Gabrielli fez com que Durigan fizesse um périplo para redução de danos entre agentes do mercado. Nessas reuniões, o ministro da Fazenda defendeu uma redução do limite de correção dos gastos do arcabouço fiscal (de 2,5% para 1,5%) na largada de um Lula 4, além de gatilhos (acionamento automático de medidas) extras para conter a alta das despesas obrigatórias.
Nas últimas semanas, ele teve conversas no BTG, XP, Itaú Unibanco e Necton Investimentos. Nessas reuniões, Durigan se vê obrigado a responder se fala em nome do presidente ou se essa é uma opinião pessoal. De acordo com relatos, Durigan diz que representa Lula, mas essas dúvidas vêm reforçando o esforço para que o próprio presidente se manifeste em defesa do arcabouço.
Em conversas com empresários e políticos, Durigan também frequentemente é questionado se é filiado ao PT (ele não é). Como mostrou a Folha de S. Paulo, uma ala do governo e do PT é crítica ao ministro acenar ao mercado com medidas específicas.
Lula, geralmente, resiste à proposta de afiançar o compromisso com ajuste, sob o argumento de que seus governos são a demonstração de responsabilidade fiscal. Mas esse está longe de ser um consenso. Por isso, colaboradores do presidente têm insistido para que ele fale nos próximos dias sobre esses compromissos.
Um desses auxiliares aponta esse gesto do presidente como um passo em busca de reeleição. Na avaliação desse interlocutor, esse aceno pacificaria setores da economia extremamente inseguros quanto a condições de Flávio Bolsonaro (PL) conduzir o país.
Principal adversário do presidente Lula na corrida presidencial, o senador tem sido aconselhado a não falar sobre medidas de ajuste fiscal. Ele chegou a contestar reportagem da Folha de S. Paulo que, em abril, mostrou que a equipe dele considerava politicamente viável um ajuste fiscal inicial da ordem de dois pontos percentuais do PIB (Produto Interno Bruto).
Para isso, teria como planos reajustar aposentadorias e despesas com saúde e educação só pela inflação, medidas que os analistas do mercado financeiro cobram do presidente Lula para reduzir a dívida pública.
Em entrevista à GloboNews, a coordenadora de economia da campanha do PL, Daniella Marques, acenou que faria um ajuste de até 1,5% do PIB sem detalhar as medidas, se resumindo a dizer que o primeiro passo seria a criação de um conselho superior de governança fiscal. Essa era uma proposta de Paulo Guedes, ex-ministro de Jair Bolsonaro, que não avançou.
Outro conselheiro de Lula chega a dizer, na condição de anonimato, que uma declaração do presidente nesse sentido já viria tarde e propõe que medidas de arrocho sejam implementadas já no final deste mandato, em uma tentativa de arrefecimento de juros no país.

Fonte: FolhaPress

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