
Em mais um dia de escalada nas provocações entre Irã e Estados Unidos durante a trégua adiada indefinidamente por Donald Trump, forças americanas pararam e abordaram um navio com petróleo iraniano no oceano Índico nesta quinta-feira (23).
Segundo postagem do Departamento de Defesa, o Majestic X não foi apreendido como o cargueiro Touska havia sido no domingo (19), mas o destino da embarcação não está claro. Ela é um petroleiro de frota fantasma sob sanções americanas, que usualmente usa bandeira da Guiana para disfarçar sua carga.
A operação ocorreu longe da entrada para o golfo Pérsico, e envolveu helicópteros do Comando do Indo-Pacífico, que não está envolvido diretamente no conflito do Oriente Médio. Até a véspera, o Pentágono havia dito ter impedido o trânsito de 31 navios desde o início do embargo, na segunda retrasada (13).
Já o Irã voltou a asseverar o controle sobre o estreito de Hormuz nesta quinta. Segundo o número 2 do Parlamento local, Hamid Rez Haj Babaei, Teerã recebeu e depositou no seu Banco Central a primeira leva de pagamentos do pedágio que o país quer instituir de navios transitando em Hormuz.
Segundo a agência Tasnim, o valor não foi revelado. Pode ser apenas propaganda, mas evidencia a posição de força que os iranianos buscam com sua principal ficha de negociação com os Estados Unidos.
Na véspera, lanchas da Guarda Revolucionária haviam abordado dois navios de carga perto da costa iraniana e os apreenderam. Segundo as operadoras das embarcações, uma de bandeira panamenha e outra liberiana, as tripulações estão a salvo.
A unidade militar divulgou um vídeo com música triunfalista, em mais uma jogada de marketing bélico. Nele, as lanchas se aproximam dos cargueiros e homens com balaclavas sobem neles, armados. Não aparecem nas imagens nenhum navio de guerra de fato os EUA disseram ter destruído mais de 160, toda a frota principal iraniana.
Tudo isso visa pressionar Trump, que recuou unilateralmente do plano de atacar o Irã novamente por dois motivos principais: a crise global decorrente do aumento dos combustíveis, já que por Hormuz passavam 20% do petróleo e do gás natural do planeta, e a impopularidade da guerra a meses da crucial eleição de meio de mandato nos EUA.
O presidente americano disse que poderia haver uma nova rodada de negociações com os iranianos no Paquistão até esta sexta (24), mas manteve o bloqueio aos portos iranianos. A medida não é 100% eficaz, mas tem servido de justificativa para Teerã se recusar a conversar.
Enquanto isso, os iranianos buscam propagandear o controle que exercem pela passagem, que tem meros 33 km de largura até a costa de Omã em seu ponto mais estreito. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, até o cessar-fogo de 7 de abril, o trânsito diário de 140 navios caiu a 10%, a maioria iranianos.
Desde então, o tráfego caiu ainda mais. O bloqueio americano ampliou um pouco a passagem de navios indo e vindo de outros países do golfo Pérsico, mas na terça (21) apenas uma embarcação transitou.
Já o Irã criou um novo esquema para a região, que quer ver implementado de forma definitiva num acordo de paz. Segundo a proposta, os navios passam por suas águas, já que Teerã disse ter minado o caminho usual que passa por uma faixa de 3 km de largura em cada sentido entre elas e as de Omã.
Ao fazer isso, os navios devem pagar um pedágio proporcional à sua carga, que foi ventilado em US$ 2 milhões por dia ou, no mínimo, US$ 1 por barril de petróleo ou equivalente a bordo. Os EUA rejeitaram liminarmente a ideia, que copia de certa forma o que o Egito faz no também vital canal de Suez, no mar Vermelho.
A diferença é que os egípcios controlam ambas as margens do canal, o que levou à especulação se Omã poderia dividir os lucros com o Irã caso o plano avançasse. Hoje, a proposta de Teerã é ilegal e viola a lei marítima internacional mas nem iranianos, nem americanos assinaram a convenção sobre o tema.
Apesar das demonstrações de força, há sinais também de divisões nas hostes da teocracia, que teve quase toda sua cúpula morta nos ataques de EUA e Israel.
A Guarda desautorizou, por exemplo, a reabertura de Hormuz anunciada pelo chanceler e negociador Abbas Araghchi, e parece hoje ter a palavra final em todas as decisões políticas de Teerã.
O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, segue longe dos olhos do público, levantando suspeitas sobre sua condição oficialmente, ele sobreviveu ao ataque que matou o pai e antecessor, Ali, no primeiro dia do conflito.
Fonte: FolhaPress