
Embora a OpenAI ainda detenha uma vantagem significativa em termos de reconhecimento de marca e número de usuários, a Anthropic parece estar construindo uma narrativa mais alinhada com as expectativas de longo prazo do mercado
O ano de 2026 pode marcar um ponto de inflexão não apenas para o mercado de capitais, mas para a própria governança da inteligência artificial. A esperada abertura de capital da OpenAI e da Anthropic tende a configurar dois dos maiores IPOs da história recente, não apenas pelo volume financeiro envolvido, mas pelo significado estrutural desses movimentos.
Trata-se de empresas que operam na fronteira tecnológica e que demandam níveis inéditos de capital para sustentar sua expansão, em um contexto no qual infraestrutura computacional, dados e energia se tornam ativos estratégicos.
A magnitude desses IPOs decorre de uma convergência rara: crescimento exponencial da demanda e dos custos e a percepção de que a inteligência artificial pode se tornar uma infraestrutura essencial, comparável as telecomunicações ou ao sistema energético.
Se a OpenAI surge como o nome mais reconhecido globalmente, especialmente pela centralidade do ChatGPT, a trajetória recente da Anthropic desafia essa hegemonia. Dados recentes indicam que a Anthropic apresentou um crescimento de receita mais acelerado, impulsionado sobretudo por sua forte inserção no mercado corporativo. Em determinados recortes, sua receita anualizada já supera a da OpenAI, revelando uma mudança silenciosa, porém relevante, na estrutura competitiva do setor.
É nesse ponto que emerge um elemento particularmente interessante: o crescimento da Anthropic ocorre em meio a — e talvez causado por — um conjunto de controvérsias e decisões estratégicas que reforçam sua imagem como uma empresa mais cautelosa em relação aos riscos da IA. Alguns exemplos recentes ilustram bem essa dinâmica.
A Anthropic negou-se a fornecer suas ferramentas de IA para o Pentágono, o atual “Departamento de Guerra” dos Estados Unidos, por discordar do potencial uso de seus recursos para espionagem de civis em massa e para a criação de armas de guerra autônomas.
Como reação, o Presidente dos Estados Unidos ordenou que o governo como um todo não mais contratasse com a Anthropic. Mais recentemente, a empresa optou por não disponibilizar publicamente seu modelo Claude Mythos, alegando que suas capacidades, especialmente na identificação e exploração de vulnerabilidades de software, seriam potencialmente perigosas se amplamente acessíveis, podendo facilitar muito ataques cibernéticos.
A lógica dominante seria a de que essas polêmicas prejudicariam os negócios da Anthropic, mas o efeito foi justamente o contrário. Ao inverter a lógica, a Anthropic mandou uma mensagem para seus consumidores de que priorizaria o uso responsável e ético da IA, atendendo ao que não apenas dos consumidores, mas também os investidores, mais desejam neste momento.
As “polêmicas” não fragilizam a Anthropic, mas, ao contrário, reforçaram sua credibilidade junto a investidores que buscam não apenas crescimento, mas também resiliência regulatória. Em um ambiente no qual a governança da IA se torna um fator crítico de valuation, a capacidade de demonstrar controle sobre riscos pode se converter em vantagem competitiva.
Diante desse cenário, emerge uma hipótese provocativa: se o IPO das duas empresas ocorresse hoje, é plausível que a precificação da Anthropic fosse maior que a da Open AI.
Embora a OpenAI ainda detenha uma vantagem significativa em termos de reconhecimento de marca e número de usuários, a Anthropic parece estar construindo uma narrativa mais alinhada com as expectativas de longo prazo do mercado.
Os IPOs de OpenAI e Anthropic não serão apenas eventos financeiros. Eles representam um momento de transição na própria natureza das empresas de tecnologia de ponta. Essas organizações deixam de ser apenas laboratórios de inovação e passam a operar como infraestruturas críticas, sujeitas a novas formas de governança.
Minha visão é que a companhia que liderar não apenas a tecnologia da IA, mas também a governança da IA, sairá vitoriosa. Essa é uma questão que o mercado responderá em breve e voltaremos aqui para contar o resultado.
Fonte: IstoéDinheiro