
Washington e Teerã têm incentivos para acabar com a guerra, mas o conflito só terminará de vez se a preocupação do presidente norte-americano com seu nível de aprovação entre os eleitores pesar mais do que as discórdias com o regime dos aiatolás
O sucesso (ou fracasso) das negociações entre os Estados Unidos e o Irã será determinado pelo tamanho da vaidade do presidente Donald Trump e por suas preocupações com a própria popularidade entre os eleitores americanos.
Ao contrário do que ele próprio imaginava, a guerra teve um efeito devastador nos níveis de aprovação de Trump e de seu governo.
Uma pesquisa divulgada pela CNN norte-americana no início do mês mostrou que sua popularidade caiu para o nível mais baixo desde o primeiro mandato na Casa Branca.
Apenas 31% dos eleitores aprovam sua gestão econômica. Dois terços dos norte-americanos afirmaram que suas políticas pioraram a economia, um aumento de 10 pontos percentuais desde janeiro.
Trump está sendo criticado até mesmo por seus apoiadores mais fervorosos, que são completamente contra o envolvimento dos Estados Unidos em guerras longe de casa.
Foram esses resultados que levaram o presidente a aceitar os termos iniciais propostos pelo Irã para um cessar-fogo temporário e frágil.
Mas garantir uma paz duradoura na região e a liberação total do importantíssimo Estreito de Ormuz será muito mais complicado.
Incentivos para os dois lados
Os dois lados têm fortes incentivos para encerrar o conflito de vez. E ambos tentarão dizer ao mundo que venceram a guerra.
O Irã, obviamente, não quer voltar a ser bombardeado pelos norte-americanos e israelenses.
Mais de 3.600 iranianos foram mortos no conflito, incluindo centenas de crianças e mulheres. O país perdeu mais da metade de sua capacidade de defesa e viu grande parte de sua infraestrutura, inclusive civil, ser destruída.
Mas a própria manutenção do regime islâmico será vendida ao mundo e à reprimida população do Irã como uma vitória sobre o inimigo.
Trump quer o fim da guerra para liberar de vez o Estreito de Ormuz, regularizar o mercado de energia com a retomada da exportação de petróleo e gás da região do Golfo Pérsico e reduzir a crise econômica global causada pela guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel.
Além disso, o presidente teme o impacto da crise nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro. A guerra pode impulsionar o voto nos Democratas e acabar com o controle do Partido Republicano no Congresso.
Mas a Casa Branca também tentará vender ao mundo a narrativa de que venceu a guerra, por praticamente ter destruído a Marinha e a Força Aérea do Irã e ter assassinado o líder supremo Ali Khamenei e dezenas de outras personalidades importantes na estrutura do país.
Obstáculos e divergências
Apesar desses incentivos, os obstáculos são enormes e quase intransponíveis.
Para liberar o Estreito de Ormuz e encerrar o conflito, o Irã exige pontos como o direito de manter um programa nuclear (em tese para fins civis), indenizações pela destruição do país e garantias de não voltar a ser atacado.
Nem os Estados Unidos, e muito menos Israel, vão concordar com esse tipo de exigência.
Os norte-americanos, por sua vez, defendem o fim total de qualquer programa nuclear iraniano, rejeitam a possibilidade de o país cobrar pela passagem de navios pelo Estreito de Ormuz e querem limitar as capacidades de defesa do regime.
Os aiatolás, e especialmente a Guarda Revolucionária Islâmica, jamais concordarão com demandas desse tipo.
A melhor aposta seria um acordo temporário que focasse nos pontos mais fáceis de negociar, adiando as questões mais sensíveis para o futuro.
Isso, claro, com o compromisso de que os dois lados encerrem os ataques e de que o Estreito de Ormuz seja liberado de alguma forma.
E é aqui que entra a preocupação com a popularidade de Trump.
Ele só aceitará uma solução imperfeita desse tipo, que poderia, inclusive, enfraquecer a posição americana no mundo, caso se convença de que sua principal prioridade é recuperar ao menos parte do prestígio junto aos eleitores.
É bem possível que isso aconteça.
Fonte: CNN