
O Tesouro Nacional agiu preventivamente com uma bateria de leilões de recompra de títulos públicos nesta semana para conter uma sucessão de problemas no mercado de fundos de investimento, mas economistas alertam que o governo não pode exagerar na dose.
O diagnóstico de técnicos do Ministério da Fazenda é que, sem a intervenção, o cenário do mercado de renda fixa no Brasil seria catastrófico, após o preço do barril de petróleo tipo Brent ter se aproximado de US$ 120, impulsionado pela escalada de conflitos no Oriente Médio.
O movimento do Tesouro, segundo os técnicos, foi feito para “limpar” o risco do mercado e evitar uma escalada ainda mais grave do quadro de volatilidade.
A guerra no Irã trouxe mudanças bruscas no cenário de juros, que atingiram mais fortemente os fundos, que são obrigados a fazer a chamada marcação a mercado. Ou seja, a atualização diária do valor dos seus ativos.
Os fundos estavam posicionados esperando uma redução dos juros no mercado futuro, o que não ocorreu. O que acaba acontecendo nesse cenário de estresse é conhecido no mercado sob o jargão “bater no VaR” (Value at Risk), que é quando um fundo de investimento ultrapassa o limite máximo de perda potencial estimada para um determinado período.
Quando isso ocorre, ele tem que vender ativos, mas encontra dificuldade para achar um comprador porque vários outros gestores de fundos também estão tentando se desfazer dos títulos. Consequentemente, o preço do papel cai ainda mais, enquanto a remuneração paga sobe. É uma espiral que amplifica a volatilidade.
Com a intervenção de recompra, o Tesouro oferece uma porta de saída para os fundos e outros agentes de mercado venderem seus ativos. Os técnicos avaliam que a intervenção no mercado de juros serviu como um “rémedio para conter essa infecção”, evitando que o problema se alastrasse, e o Tesouro tivesse problemas mais à frente para financiar a dívida pública nos seus leilões tradicionais semanais. Um quadro que, na avaliação do governo, seria mais danoso para a gestão da sua dívida e o seu caixa.
A deterioração das condições de mercado, que levou à intervenção, começou na sexta-feira passada (13), quando o pessismo tomou conta dos investidores e as taxas de juros futuros dispararam. Os investidores passaram a temer um cenário inflacionário e, consequentemente, projetam taxas de juros mais elevadas.
No fim de semana, as notícias do conflito no Oriente Médio se agravaram. A proximidade da decisão sobre os juros no Brasil e nos Estados Unidos gerou mais incerteza diante da escalada de preços do petroleo. O Tesouro decidiu, então, iniciar um movimento de intervenção, que durou três dias: de segunda a quarta-feira.
Foram recomprados R$ 49 bilhões de títulos em cinco leilões. Na outra ponta, foi vendido R$ 1,7 bilhão de novos títulos. O Tesouro também manteve o leilão anteriormente programado de LFTs (títulos com correção atreladas à taxa Selic), o que garantiu mais R$ 18 bilhões. O saldo líquido foi uma perda de cerca de R$ 30 bilhões do chamado colchão de liquidez, que é a reserva que o governo tem em caixa para ficar sem fazer leilão de títulos em momentos de alta de volatilidade.
Segundo um técnico, o Brasil não está inventando a roda com esses leilões, e a prática que é adotada em países desenvolvidos e pares do Brasil.
“Eles deram cortisona ao paciente, mas a cortisona tem efeitos colaterais. Se o remédio for usado de forma exagerada, [os efeitos] são bem perigosos”, disse à reportagem o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Para ele, a prescrição do remédio faz com que o sistema ganhe tempo para se recuperar, mas não resolve o problema da saúde do paciente.
Ele comparou a ação ao uso de um arsenal heterodoxo, que só vai funcionar se outras providências forem tomadas na direção de uma situação mais saudável.
“Não sei o que vão falar, mas o fato é que hoje, nós estamos aqui no início de um ano de eleição, não está com cara de que vai ter nenhum movimento na direção de contenção fiscal”, avaliou. “É muito perigoso você mascarar o sintoma. Sempre. Na medicina e na economia”, afirmou Fraga, que vê como anomalia as elevadas taxas de juros real com prazo longos.
Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Manoel Pires diz que em momentos de incerteza, como agora, em que se perde referência de preços é comum o Tesouro interceder. “Os juros escalaram. Teve muita saída de recurso de fundos”, disse.
Pires ressaltou que a subida do juros significa a queda do preço do título, o que permite que na recompra o Tesouro tenha um lucro na operaçao. A tendência com a intervenção é a aumentar um pouco a liquidez de algumas instituições financeiras, fundos e gestoras.
Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren, a atuação do Tesouro foi correta.
“A mudança de perspectiva quanto aos juros levou o mercado a não encontrar demanda para desovar determinados tipos de títulos, principalmente com vencimento de 2026 a 2030”, avaliou. Neste caso, para normalizar o mercado, afirmou ele, é possível o Tesouro utilizar o instrumento de compra e venda, simultaneamente.
Um experiente técnico do Tesouro reconheceu que é difícil calibrar o momento certo da atuação, para evitar dar porta de saída para investidores que tomaram decisões de risco equivocadas. Ele ponderou, no entanto, que o governo pode ter gastado um pouco de pólvora antes, e agora o mercado pode querer mais e o Tesouro precisar usar novamente do seu colchão de liquidez para atuar.
Fonte: FolhaPress