
A Anvisa analisa solicitações de 14 empresas, como EMS, Biomm e União Química para lançar versões acessíveis do “remédio da moda”
Expira nesta sexta-feira, 20, a patente da semaglutida, substância ativa dos remédios Ozempic e Wegovy da fabricante dinamarquesa Novo Nordisk. Com isso, outras empresas poderão fabricar no Brasil suas versões de um dos remédios mais populares para tratamento do diabetes e também do sobrepeso.
Ao menos 14 pedidos de registro de genéricos ou similares da semaglutida aguardam aprovação da Anvisa. EMS, Biomm e União Química aparecem nas primeiras posições da fila e deverão receber aprovação primeiro para comercializar versões mais baratas do medicamento.
Antes mesmo da queda da patente, a Novo Nordisk mudou sua dinâmica de preços de forma a disponibilizar uma segunda caneta com dose inicial de 0,25 mg do Wegovy na compra de uma unidade. Já a versão oral da semaglutida, comercializada sob a marca Rybelsus, passou de R$ 1.293,49 em qualquer caixa para preços entre R$ 565 e R$ 874 (os valores variam conforme a dosagem e o canal de compra físico ou digital).
Apesar de ter tentado judicialmente prolongar sua exclusividade para produzir semaglutida, a Novo Nordisk afirma em nota que “o encerramento de uma patente é etapa natural no ciclo de vida de qualquer inovação” e que “empresa segue investindo em ciência capaz de antecipar necessidades futuras, ampliar possibilidades terapêuticas e gerar valor duradouro”.
Versões genéricas, como a que a Biomm informou à IstoÉ Dinheiro que pretende comercializar, devem chegar ao mercado brasileiro com preço 30% mais barata do que o medicamento de referência. Trata-se da diferença de preço mínima para receber a classificação de genérico.
Quando os genéricos chegarão ao mercado?
A queda da patente não garante a venda imediata de versões concorrentes. O tempo para que estejam disponíveis no mercado dependerá ainda da aprovação da Anvisa. Não há um prazo definido para o processo de análise pelo órgão regulador. O tempo médio para registro de genéricos e similares é de 944 dias, ou seja, cerca de dois anos e sete meses.
Como se trata de uma medicação com alta demanda entre a população, a expectativa é que a aprovação das primeiras versões alternativas do Ozempic recebam prioridade. Dados do Ministério da Saúde apontam que 62,6% dos brasileiros tinham sobrepeso em 2024. O número representa um crescimento considerável em relação aos 42,6% registrados em 2006. A taxa de obesidade (IMC igual ou maior que 30 kg/m²) dobrou no período, passando de 11,8% para 25,7% da população.
Ainda assim, deve demorar ao menos alguns meses para a disponibilização dos medicamentos nas farmácias.
Ozempic no SUS
A chegada de versões similares ou genéricas aumenta a expectativa de que novos remédios estejam disponíveis em breve no SUS (Sistema Único de Saúde). O Ministério da Saúde informou ter solicitado à Anvisa prioridade no registro de medicamentos compostos por semaglutida. “ Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa”, afirma o órgão.
Apesar de não confirmar planos de incluir o medicamento no SUS, o órgão destaca outras iniciativas já em curso no combate e prevenção do sobrepeso. que “Nutricionistas e psicólogos das equipes multiprofissionais acompanham a população, com encaminhamento para serviços especializados — como a cirurgia bariátrica — quando necessário. O Ministério da Saúde também investe em ações preventivas, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, o Programa Academia da Saúde e o Programa Saúde na Escola, que estimulam hábitos saudáveis desde a infância.”.
Apesar de um aval do governo federal seguir em suspenso, o prefeito Eduardo Paes anunciou na última sexta-feira, 13, a incorporação do medicamento na rede de saúde municipal do Rio de Janeiro. A medida foi alcançada através de uma parceria com a Novo Nordisk.
“O objetivo principal dessa cooperação técnica é criar condições para que a equidade de acesso seja ampliada, e gerar evidências de políticas públicas, para que esse modelo de cuidado integral e multidisciplinar às pessoas com obesidade seja replicável em escala cada vez maior no SUS”, declarou o head de Parcerias Institucionais da Novo Nordisk, Conrado Carrasco.
Informações do jornal O Globo, 320 pessoas com IMC acima de 40 (obesidade nível 3) e comorbidades associadas foram selecionadas para iniciar os testes no município. A expectativa é ampliar para 10 mil pacientes em três meses.
Impactos da popularização do medicamento no consumo
Com a queda de preço e um provável aumento do consumo deste tipo de medicamento, a economia brasileira pode passar por grandes transformações, a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos. Lá, o sobrepeso alcança 72,9% da população adulta, sendo 42,7% obesos.
Estudo da consultoria KPMG aponta que 3,5% dos estadunidenses já faz uso de agonistas do GLP-1, classe de medicamentos que inclui o Ozempic e o Mounjaro. A parcela corresponde a cerca de 13 milhões de usuários. O número está em crescimento contínuo.
Segundo o relatório, quem toma o remédio passa a consumir 21% menos calorias e a gastar 31% menos nas compras mensais. Até 2034, a queda representaria uma diminuição de US$ 48 bilhões de receita para empresas do ramo de comidas e bebidas, ou perda de 21% do faturamento atual.
O que são os agonistas do GLP-1
Os análogos do GLP-1 imitam a ação de um hormônio produzido naturalmente pelo intestino durante a digestão. Promovem assim a redução dos níveis de glicose no sangue e o aumento significativo da sensação de saciedade após as refeições.
Embora o desenvolvimento inicial dessa tecnologia visasse exclusivamente o controle do diabetes tipo 2, a semaglutida ganhou notoriedade global por sua impressionante eficácia no tratamento clínico da obesidade.
Além da semaglutida, o mercado brasileiro oferece outras opções de agonistas do GLP-1 com ampla aceitação. A liraglutida é comercializada pela Novo Nordisk por meio das marcas Saxenda e Victoza, além de possuir versões da EMS sob os nomes Olire e Lirux. Outras alternativas relevantes incluem a dulaglutida, distribuída pela Eli Lilly como Trulicity, e a tirzepatida, também da Eli Lilly e comercializada sob a marca Mounjaro, que representa a geração mais recente dessa categoria terapêutica.
Fonte: IstoéDinheiro