
Com faturamento de R$ 13 bilhões, Rede Américas defende maior abertura de indicadores clínicos para equilibrar custos de saúde no Brasil
Para o CEO da Rede Américas, Lício Cintra, existe uma precificação relativamente justa no segmento de saúde, entretanto há um desalinhamento de interesses que prejudica o setor como um todo.
Ao Dinheiro Entrevista, o executivo conta que operadoras e redes de hospitais acabam, no fim do dia, rumando para direções contrárias. A Rede Américas controla uma rede de 26 hospitais, fruto da consolidação entre Amil (anteriormente sob controle da UnitedHealth Group) e da Dasa. A rede tem faturamento acima de R$ 13 bilhões e opera cerca de 4,7 mil leitos.
“Nós temos o nosso desafio de precificar de maneira adequada para conseguirmos criar um ciclo virtuoso, algo que vai ser um desafio do setor sempre. Eu acredito muito na eliminação dos desperdícios. Acho que no momento que a gente consegue alinhar os interesses……porque hoje eles são alinhados. Você tem as operadoras tentando fazer sua gestão de sinistro, então [para eles] quanto menos paciente dentro de hospitais, melhor, e você tem as estruturas de saúde que, quanto mais cheias, melhor, olhando ponto de vista de resultado”, analisa.
“A nossa crença é que temos que trabalhar juntos de alguma maneira, estabelecendo indicadores, tendo a abertura dos indicadores assistenciais. Essa tem sido uma bandeira da Rede Américas. Eu não tenho problema nenhum em discutir isso, 100% dos meus clientes que quiserem entrar e discutir indicador clínico, vão ser super bem-vindos. Querem deixar médicos dentro da estrutura discutir indicadores clínicos e alguns já fazem isso, são super bem-vindos”, completa.
Segundo Cintra, ’10 a cada 10 lideranças’ vão achar que, no Brasil, se cobra pouco por serviços de saúde. A tese é de que o Brasil investe um percentual relativamente pequeno do PIB em saúde, especialmente no comparativo com outros países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
“O cobertor é um só. Se eu puxo mais, o outro lado fica descoberto e é assim dentro dessa dessa indústria. Temos tentado — e esse é um esforço conjunto e apesar de cada um defender o teu interesse — criar uma dinâmica onde minimamente se consiga ter margem para propiciar o reinvestimento e ter uma empresa mais saudável e sustentável a longo prazo.”
Atualmente os gastos com saúde no Brasil giram em torno de 9% do PIB, todavia há a divisão entre o que o governo gasta (público) e o que os cidadãos pagam do próprio bolso ou em planos (privado) — apenas cerca de 4% é gasto público (SUS), e o restante é gasto privado.
Nos EUA, são 17% do PIB, sendo o patamar mais alto do mundo em um sistema majoritariamente privado e com custos operacionais altíssimos. Na Alemanha, são 12,3%, com um gasto público relativamente elevado e sistema universal, e no Reino Unido o patamar fica em 11% com sistema 100% público (NHS) com forte financiamento estatal.
‘Efeito Ozempic impacta custos e futuro dos hospitais’
Na esteira do ‘efeito Ozempic‘, a indústria de saúde deve ver impactos no longo prazo que vão da redução de próteses de joelho e quadril até redução de doenças cardiovasculares, segundo Cintra.
“As canetas emagrecedoras impactam todos os setores. Quando olhamos a indústria de alimentação, está mudando, até a indústria de aviação está mudando. Acho que é um pouco prematuro falarmos sobre o real impacto, calibrar isso, mas no setor de saúde, óbvio que ter pessoas mais ativas e mais saudáveis torna a equação mais fácil de fechar”, diz o executivo.
Cintra frisa que, em um primeiro momento, as evidências mais visíveis serão as relativas a redução do percentual da população que possui sobrepeso.
“O sobrepeso traz com ele doenças cardiovasculares, problemas cardíacos, cirurgias ortopédicas. Se você tem uma massa mais ativa e mais saudável, naturalmente você vai ter uma redução nesses desses procedimentos.”
A Rede Américas, em complemento, adiciona que a utilização das canetas emagrecedoras deve ser feita com o devido acompanhamento médico. Além disso, a companhia reforça que a aquisição desse tipo de produto deve ser feita exclusivamente por meio de canais oficiais e devidamente regulados.
Apesar do produto já estar há alguns anos no mercado, a estimativa é de que o impacto aumente nos próximos meses e anos, dado que a queda da patente deve tornar o produto mais acessível para a população.
“Com isso, e com várias indústrias entrando nisso, vai ocorrer uma democratização, e aí sim vem uma grande transformação”, diz Cintra. O impacto global citado pelo executivo, que vai até as companhias aéreas, é analisado desde meados de 2023.
Um relatório da Jefferies Financial estimou que a United Airlines teria uma economia da ordem de US$ 80 milhões ao ano em combustível se o peso médio dos passageiros diminuísse 4,5 quilos.
O fenômeno, apelidado de “Economia GLP-1“, fez com que o ramo de alimentação e de supermercados também redesenhasse algumas estratégias de negócio. Uma pesquisa da consultoria KAM Insight aponta que 30% dos usuários de canetas como Mounjaro e Ozempic diminuíram a frequência com que saem para comer e beber.
Um relatório do Itaú BBA, de 2024, aponta que em um panorama de grande adesão a medicamentos do tipo (podendo chegar a 15 milhões de usuários até 2030), empresas de alimentos com mais carboidratos e produtos focados em indulgência teriam queda de lucro líquido. No parecer, o time de research do banco projetou uma retração de até 2% no lucro líquido para M. Dias Branco (líder em massas e biscoitos) e Camil (líder em arroz e grãos).
Canetas emagrecedoras movimentam R$ 10 bilhões
O Itaú BBA também avalia que, no acumulado do ano de 2025, foram aproximadamente R$ 10 bilhões movimentados pelo mercado de agonistas do GLP-1. Essa cifra representa 4% do faturamento do varejo farmacêutico brasileiro.
A XP chegou em número semelhante — de R$ 9 bilhões a R$ 10 bilhões — e apontou ainda que o crescimento ante o ano anterior foi de 77% nas importações.
O mercado é, em grande medida, de duas companhias:
- Novo Nordisk, da Dinamarca, fabricante do Ozempic
- Eli Lilly, dos EUA, fabricante do Mounjaro
Até meados de abril do ano de 2025, a semaglutida, princípio ativo do Wegovy e Ozempic, dominava mais de 96% do mercado. Entretanto, em maio o Mounjaro chegou ao mercado, proporcionando resultados ainda mais expressivos com a tirzepatida. O market share da Eli Lilly, assim, passou a beirar os 50%.
Fonte: IstoéDinheiro