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China se articula contra dano político e econômico da guerra do Irã e vê sua influência sob teste

A China está se articulando para minimizar os danos causados pela guerra do Irã e pela decisão do país persa de fechar o estreito de Hormuz, o que pode afetar diretamente sua economia e coloca sua influência no Oriente Médio sob teste.
Desde o ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, o chanceler Wang Yi teve a agenda cheia de ligações telefônicas com contrapartes de diversos países.
Dois dos principais atores da guerra, Irã e Israel, estão na lista. Também figuram os responsáveis pela pasta das Relações Exteriores de Rússia, França e Omã.
Na conversa mais recente, a pedido do chanceler israelense, Gideon Sa’ar, Wang recebeu um relatório sobre o posicionamento de Tel Aviv na guerra. Segundo relato da chancelaria de Pequim, a parte chinesa reafirmou o que tem dito sucessivamente na mídia estatal, em entrevistas coletivas e em documentos oficiais: que defende a via diplomática.
Wang afirmou que a China se opõe aos ataques e que há anos atua para promover uma solução política para o programa nuclear iraniano. Declarou ainda que as negociações entre o país persa e os americanos alcançaram progressos “lamentavelmente” interrompidos pelo início das “hostilidades”.
Não há, até a publicação desta reportagem, informações detalhadas sobre o que Sa’ar teria dito a Wang.
A ligação ocorreu um dia após o chanceler chinês conversar por telefone com seu homólogo iraniano, a pedido dele. Abbas Araghchi, chefe da pasta persa, destacou que o ataque foi feito em meio a negociações e que seu país “não teve outra escolha senão defender-se plenamente”, segundo relato da chancelaria chinesa.
Wang, por sua vez, afirmou que “valoriza a tradicional amizade sino-iraniana e apoia o Irã na defesa de sua soberania”. Ficou claro, porém, que Teerã está ciente de que Pequim se mantém imparcial.
Os líderes não abordaram o fechamento do estreito de Hormuz, que pode afetar a segurança energética da China.
De todos os telefonemas, o com a contraparte iraniana parece ter peso maior. Para além da amizade destacada por Wang, os países têm uma parceria estratégica de 25 anos assinada em 2021; a China é o principal parceiro comercial do Irã, e o país persa é parte importante da expansão do Cinturão e Rota por ser um dos nós que conecta a Ásia, o Oriente Médio e o Ocidente.
A iniciativa, que visa ampliar a integração econômica da China e aumentar sua influência geopolítica, entre outros objetivos, segue como a menina dos olhos de Xi Jinping, o líder chinês que a criou.
O tom diplomático, embora assertivo, das ligações entre os chanceleres segue o histórico chinês diante de outros conflitos, como a ação americana na Venezuela. Na época, o ataque coordenado pelo presidente americano, Donald Trump, foi também um ponto de atenção ao abastecimento energético chinês, uma vez que o país asiático era, até aquele ataque no início do ano, o principal comprador do petróleo venezuelano.
A diferença para a China entre o impacto da ação na região sul-americana e o de agora é que, enquanto o total importado do petróleo venezuelano em 2025 representava apenas 3,8% (um revés para pequenas refinarias independentes e quase irrelevante para as grandes estatais), Pequim tenta agora se antecipar a um problema de fornecimento de outra magnitude caso o conflito persista.
Analistas e consultorias apontam que mais de 50% do petróleo importado pela China vem de países do Oriente Médio, fazendo do país asiático o principal destino do fluxo de barris que passa pelo estreito.
Em suas ligações, seja com os diretamente envolvidos no conflito ou com os lateralmente afetados, Wang deixa clara a posição chinesa e se movimenta para passar a mensagem de que Pequim acompanha atentamente as movimentações na região. Sua pasta, por meio da porta-voz Mao Ning, já havia pedido o fim da guerra para evitar maiores danos ao desenvolvimento econômico global.

Fonte: FolhaPress

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