
A plataforma de delivery de comida Keeta anunciou que vai focar esforços ao longo dos próximos meses em batalhas judiciais contra seus maiores concorrentes, com o objetivo de derrubar práticas que considera prejudiciais ao livre mercado.
Em entrevista à IstoÉ Dinheiro, o CEO da Keeta no Brasil, Tony Qiu, afirma que foram encontrados até mesmo contratos irregulares assinados pelo iFood com restaurantes. “Eles não podem renovar exclusividade por mais de dois anos, mas, com base na nossa experiência nas cidades, descobrimos que alguns contratos são renovados após esse período”, diz.
Os contratos de exclusividade do iFood, assinados com redes de restaurantes com menos de 30 unidades, estariam restringindo os negócios com redes pequenas. Ao mesmo tempo, grandes cadeias — como Burger King, Outback e Starbucks — estariam bloqueadas por contratos assinados pela 99Food, com cláusulas específicas contra a Keeta.
“Estamos bloqueados em ambos os níveis de restaurante por esses dois competidores”, declara Tony Qiu sobre o iFood e a 99Food.
Em nota, o iFood argumenta que “há exceções que permitem contratos com prazo superior a dois anos quando o iFood faz investimentos que geram o crescimento para o restaurante parceiro. Essas regras estão previstas em acordo firmado pela plataforma com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que está sendo cumprido em sua totalidade”. A líder no mercado acrescenta que “causa estranheza que os contratos de exclusividade estejam impactando uma determinada plataforma, sem atingir outros concorrentes que seguem investindo”.
A 99Food não comentou o assunto.
Bloqueio por exclusividade atingiria metade do mercado
A Keeta preparava sua inauguração no Rio de Janeiro para a próxima semana, mas decidiu adiar por tempo indeterminado sua expansão geográfica para, antes, travar a disputa judicial contra a concorrência. A companhia afirma que havia cadastrado 17 mil restaurantes na capital fluminense, porém ainda considerava o cenário demasiado fechado para seus negócios.
“O problema é que os principais restaurantes, como as grandes redes, não podem trabalhar conosco. Se lançarmos agora, quando os consumidores abrirem o aplicativo, não encontrarão seus restaurantes favoritos. Não conseguirão encontrar cinco a cada dez de seus favoritos”, explica Tony Qiu.
O CEO da Keeta afirma que há cerca de 800 redes de restaurantes no país, e metade delas estaria bloqueada por algum tipo de contrato de exclusividade. “Isso cria uma barreira de entrada muito alta para novos concorrentes”, observa. “É por isso que queremos focar nossa energia e recursos em abrir o mercado primeiro.”
Parte dos restaurantes com esses acordos vigentes também estariam descontentes, segundo a Keeta. “Algumas marcas nos procuraram querendo quebrar a exclusividade, mas muitas delas temem sofrer retaliação. Inclusive, várias que tentaram já sofreram represálias”, relata o vice-presidente da Keeta, Danilo Mansano, à IstoÉ Dinheiro.
Na avaliação da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), as barreiras encontradas pela Keeta demonstram que determinações criadas pelo Cade para o setor não estão sendo cumpridas ou foram insuficientes. “Espero que o Cade aja com rigor e tempestividade, porque não podemos perder esse momento de concorrência no Brasil. É muito ruim quando você vê uma empresa desse porte encontrando um mercado fechado”, diz o presidente da associação, Paulo Solmucci.
Várias disputas jurídicas no delivery
A chegada quase simultânea da Keeta e da 99Food ao Brasil no ano passado não foi por acaso. Dois anos antes, o Cade havia fechado um acordo com o iFood que limitava a líder do segmento de delivery de renovar contratos de exclusividade.
No final dos anos 2010, o Brasil tinha quatro plataformas na disputa pelo mercado nacional. Além da brasileira iFood, a estadunidense Uber Eats, a colombiana Rappi e uma primeira versão do 99Food atuavam no país.
Em 2022, a Uber Eats deixou o Brasil, citando a concorrência como um obstáculo. A 99Food encerrou as operações no ano seguinte alegando o mesmo motivo.
Um processo movido coletivamente pelas diferentes empresas do setor e por alguns representantes do ramo de restaurantes levou a autoridade antitruste a limitar em 2023 os contratos de exclusividade do líder iFood. A companhia ficou impedida de renovar acordos do tipo após um período de dois anos, encerrado em 2025. “É por isso que viemos para cá”, afirma Qiu.
A chegada simultânea dos concorrentes acirrou rapidamente a disputa no setor. A Keeta já havia anunciado processos contra o 99Food por conta dos contratos de semi-exclusividade, que por sua vez respondeu com acusações de cópia de sua linguagem visual. Em outra ação, a 99Food foi condenada por comprar a palavra-chave “Keeta” em anúncios digitais.
Agora, a batalha jurídica ganha novos capítulos.
A Keeta no Brasil e no mundo
Os executivos afirmam que a Keeta não pretende sair do Brasil, e que manterá seu plano inicial de investir R$ 5,6 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para crescer no país. “Nós trabalharemos duro para abrir este mercado”, diz Tony Qiu.
No momento, a plataforma atua apenas em São Paulo e na baixada santista, uma atuação restrita na comparação com os seus principais concorrentes. Líder absoluto, o iFood opera em mais de 1500 cidades no país. Já a 99Food alcança as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Santos, Campinas e suas respectivas regiões metropolitanas. O Rappi — que também trabalha com delivery de restaurantes, mas focou seus últimos anúncios em entregas de outras categorias, como roupas e medicamentos — atua em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Recife, Fortaleza, além de centros urbanos como Campinas e Santos.
A Keeta está entre as maiores plataformas do mundo, sobretudo graças à força na China, onde surgiu e atua com a marca Meituan. “Operamos na China Continental, Hong Kong e Oriente Médio. O Brasil é o único mercado onde vemos um número tão grande de contratos de exclusividade, alguns com multas rescisórias altíssimas”, diz Qiu. “Na China, a exclusividade não é legalizada. No Oriente Médio, também não. Em Hong Kong, existe alguma exclusividade, mas você só pode aplicá-la até certo ponto.”
Apesar das queixas em relação a barreiras, a companhia afirma ter alcançado 2,8 milhões de downloads no Brasil e contar com 38 mil restaurantes cadastrados, cerca de 40% a mais do que na sua chegada em novembro. A plataforma não divulga dados a respeito do número de pedidos.
“Nossa meta não é atingir um determinado volume de pedidos em um prazo específico. É dobrar o tamanho de mercado do delivery no Brasil em até 5 anos. E a única coisa que impede hoje, na nossa leitura, são as exclusividades”, conclui Mansano.
Fonte: IstoéDinheiro