
Segmento enfrentou restrições típicas do ambiente industrial, como juros altos e câmbio valorizado, aponta levantamento da FGV Agro
A agroindústria brasileira encerrou 2025 praticamente sem crescimento. É o que indica o Índice de Produção Agroindustrial (PIMAgro), calculado pelo FGVAgro. De acordo com o pesquisador Felippe Serigatti, o indicador registrou leve queda de 0,1% no acumulado do ano — um desempenho que, segundo ele, pode ser resumido em uma palavra: estagnação.
O PIMAgro acompanha o comportamento da agroindústria a partir dos dados originais da Produção Industrial Mensal do IBGE. A metodologia seleciona apenas os subsetores ligados ao universo agro e reorganiza as informações em categorias mais aderentes à dinâmica do setor. “A agroindústria pertence à indústria de transformação. Ela está conectada ao que acontece dentro da porteira, mas responde fortemente à conjuntura macroeconômica”, explica Serigati.
Ano começou com fôlego, mas perdeu força
O ano de 2025 foi marcado por mudanças. No primeiro trimestre, o setor apresentou bom desempenho, com expansão de 2,3%. Já no segundo trimestre, a atividade perdeu fôlego em meio a um ambiente mais desafiador. Entre os fatores que influenciaram o resultado, Serigati destaca o cenário externo e doméstico. No campo internacional, o principal evento foi o “tarifaço” promovido pelos Estados Unidos. Parte relevante dos produtos exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano é composta por itens da agroindústria, como carne bovina, café solúvel, papel e celulose, além de calçados.
No ambiente interno, o pesquisador ressalta o impacto dos juros elevados e do câmbio. “A taxa de juros em patamares altos pressiona o custo de capital e desestimula investimentos. Já a valorização do real reduz a competitividade das exportações, afetando diretamente a indústria, inclusive a agroindústria”, afirma.
Desempenho desigual
O segmento de produtos alimentícios registrou crescimento de 1,5% no ano, sustentado principalmente pelos produtos de origem vegetal e pelo bom desempenho das proteínas animais. Mesmo com episódios adversos, como os reflexos de casos de gripe aviária no Rio Grande do Sul, o setor manteve relativa resiliência, apoiado tanto pelo mercado interno quanto pelas exportações.
Por outro lado, o setor de bebidas apresentou retração de 2,6%. Mas o principal vetor negativo veio dos produtos não alimentícios, que recuaram 1,3%. Nessa categoria, destacaram-se as quedas em biocombustíveis e produtos florestais. No caso dos biocombustíveis, pesaram as condições de mercado e a concorrência com a gasolina, além da dinâmica do açúcar, que influencia a decisão das usinas entre produção açucareira e alcooleira.
Já no segmento florestal, a conjuntura internacional e as barreiras comerciais tiveram papel relevante. “O ambiente externo mais incerto e as medidas tarifárias acabaram afetando cadeias importantes, como papel e celulose”, observa Serigati.
Serigati enfatiza que a agroindústria tem comportamento mais alinhado à indústria de transformação do que às atividades primárias. “Em 2025 a agropecuária conseguiu avançar com ganhos de produtividade e forte inserção externa. Já a agroindústria enfrentou restrições típicas do ambiente industrial, como juros altos e câmbio valorizado”, afirma.
Para o pesquisador, o desempenho de 2025 reforça a importância de observar a agroindústria sob duas óticas: a do agronegócio e a da macroeconomia. “É um setor híbrido. Depende do campo, mas também da dinâmica industrial. Entender essa dualidade é fundamental para analisar tendências e formular políticas”, conclui.
Fonte: CNN