Data Mercantil

Como o efeito Ozempic impacta custos e futuro dos hospitais, segundo CEO da Rede Américas

Na esteira do ‘efeito Ozempic‘, a indústria de saúde deve ver impactos no longo prazo que vão da redução de próteses de joelho e quadril até redução de doenças cardiovasculares.

A avaliação é de Lício Cintra, CEO da Rede Américas, companhia que controla uma rede de 26 hospitais, fruto da consolidação entre Amil (anteriormente sob controle da UnitedHealth Group) e da Dasa. A rede tem faturamento acima de R$ 13 bilhões e opera cerca de 4,7 mil leitos.

“As canetas emagrecedoras impactam todos os setores. Quando olhamos a indústria de alimentação, está mudando, até a indústria de aviação está mudando. Acho que é um pouco prematuro falarmos sobre o real impacto, calibrar isso, mas no setor de saúde, óbvio que ter pessoas mais ativas e mais saudáveis torna a equação mais fácil de fechar”, diz o executivo.

Cintra frisa que, em um primeiro momento, as evidências mais visíveis serão as relativas a redução do percentual da população que possui sobrepeso.

“O sobrepeso traz com ele doenças cardiovasculares, problemas cardíacos, cirurgias ortopédicas. Se você tem uma massa mais ativa e mais saudável, naturalmente você vai ter uma redução nesses desses procedimentos.”

 

 

Apesar do produto já estar há alguns anos no mercado, a estimativa é de que o impacto aumente nos próximos meses e anos, dado que a queda da patente deve tornar o produto mais acessível para a população.

“Com isso, e com várias indústrias entrando nisso, vai ocorrer uma democratização, e aí sim vem uma grande transformação”, diz Cintra.

O impacto global citado pelo executivo, que vai até as companhias aéreas, é analisado desde meados de 2023.

Um relatório da Jefferies Financial estimou que a United Airlines teria uma economia da ordem de US$ 80 milhões ao ano em combustível se o peso médio dos passageiros diminuísse 4,5 quilos.

O fenômeno, apelidado de “Economia GLP-1“, fez com que o ramo de alimentação e de supermercados também redesenhasse algumas estratégias de negócio.

Uma pesquisa da consultoria KAM Insight aponta que 30% dos usuários de canetas como Mounjaro e Ozempic diminuíram a frequência com que saem para comer e beber.

Um relatório do Itaú BBA, de 2024, aponta que em um panorama de grande adesão a medicamentos do tipo (podendo chegar a 15 milhões de usuários até 2030), empresas de alimentos com mais carboidratos e produtos focados em indulgência teriam queda de lucro líquido. No parecer, o time de research do banco projetou uma retração de até 2% no lucro líquido para M. Dias Branco (líder em massas e biscoitos) e Camil (líder em arroz e grãos).

O Morgan Stanley elaborou um estudo sobre o tema e concluiu que os usuários das canetas apresentam uma queda de 20% a 30% na ingestão calórica diária. Nesse contexto, o banco vê uma queda substancial nas compras de alimentos com alto teor de açúcar e gordura (salgadinhos, doces e biscoitos), com alguns subgrupos apresentando redução de gastos domiciliares acima de 10% nessas categorias.

Canetas emagrecedoras movimentam R$ 10 bilhões

O Itaú BBA também avalia que, no acumulado do ano de 2025, foram aproximadamente R$ 10 bilhões movimentados pelo mercado de agonistas do GLP-1. Essa cifra representa 4% do faturamento do varejo farmacêutico brasileiro.

A XP chegou em número semelhante – de R$ 9 bilhões a R$ 10 bilhões – e apontou ainda que o crescimento ante o ano anterior foi de 77% nas importações.

O mercado é, em grande medida, de duas companhias:

Até meados de abril do ano de 2025, a semaglutida, princípio ativo do Wegovy e Ozempic, dominava mais de 96% do mercado.

Entretanto, em maio o Mounjaro chegou ao mercado, proporcionando resultados ainda mais expressivos com a tirzepatida. O market share da Eli Lilly, assim, passou a beirar os 50%.

Queda de patente abre portas para Ozempic genérico

Em março de 2026 se encerra a vigência da patente da semaglutida, molécula que está no Ozempic e Wegovy – e com isso, os medicamentos genéricos passam a chegar no mercado,

A expectativa dos especialistas é que até o fim de 2026 novos produtos cheguem na prateleira das farmácias.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram 13 pedidos de registro de medicamentos contendo semaglutida, além de outros nove pedidos em análise relacionados a medicamentos com liraglutida.

Nos últimos meses, os representantes legais da Novo Nordisk foram aos tribunais algumas vezes para tentar barrar o fim da patente – alegando que a companhia foi prejudicada por uma demora de quase 13 anos da Anvisa para liberar o uso do Ozempic.

Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu de forma unânime que o prazo de 20 anos para vencimento da patente conta a partir do momento da submissão para análise da Anvisa – ou seja, a queda da patente do Ozempic deve se concretizar em março de 2026.

Fonte: IstoéDinheiro

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