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Salto na inflação aumenta pressão por alta de juros, e brasileiro já muda hábitos


Impulsionado pelo aumento de itens como energia elétrica e combustíveis, o IPCA avançou 0,83% em maio. O resultado superou as previsões do mercado e representa a maior taxa para o mês em 25 anos. Para analistas, o comportamento dos preços mostra uma inflação mais persistente do que o previsto, alvo de pressões que devem se estender ao longo do segundo semestre, como o custo maior da conta de luz em razão da crise hídrica.

Diante desse quadro, economistas já dão praticamente como certo que o índice oficial ficará acima de 5,25% este ano, o teto da meta de inflação. E para evitar a deterioração das expectativas em 2022, a avaliação é que o Banco Central terá de rever os planos, com mais aumento de juros.

Em 12 meses até maio, o IPCA acumula alta de 8,06%, a maior taxa para este tipo de comparação desde setembro de 2016. No mês passado, a energia elétrica foi a maior pressão, com alta de 5,37%, puxada pelo acionamento da bandeira vermelha nível 1, uma sobretaxa na conta de luz que adiciona R$ 4,169 à fatura a cada cem quilowatts-hora consumidos.

Em junho, o item deve continuar a comprimir o orçamento das famílias, pois será adotada a bandeira vermelha nível 2, mais cara, em razão da escassez de água nos reservatórios de hidrelétricas.

Aparelhos fora da tomada

A promotora de vendas Simone Godinho, de 51 anos, já percebeu o aumento na conta de luz e diz que a escalada de preços veio em mau momento, pois a maioria da família permanece em casa em razão da pandemia:

Meu marido e minha filha trabalham e estudam de casa. A iluminação, o computador, o celular ficam ligados direto. No início da pandemia, percebi aumento na conta porque passamos a consumir mais. Agora, sinto que o aumento é por conta da tarifa — diz.

Ela acrescenta que foi forçada a mudar hábitos:

Desconecto os aparelhos da tomada para gastar menos energia e espero um acúmulo grande de roupas para lavar tudo de uma vez só.

A gasolina também foi destaque, com alta de 2,87% em maio. O combustível acumula variação de 45,80% nos últimos 12 meses. O grupo alimentação e bebidas avançou 0,44% no mês passado, influenciado pelo preço das carnes, que subiram 38% em 12 meses. Outras pressões vieram dos produtos farmacêuticos (1,47%) após autorização de reajuste em abril.

Preços das commodities

Para Tatiana Nogueira, economista da XP Investimentos, há um movimento de espalhamento da inflação. Além da crise hídrica, a alta de commodities persiste, somada à quebra da cadeia de suprimentos, que não tende a se regularizar este ano, e a uma demanda aquecida, que permite o repasse dos custos elevados de bens industriais.

Tudo isso, avalia, tem desancorado as expectativas para o ano que vem.

— Já projetávamos 6,2% para 2021 e agora vemos a inflação do ano de 2022 em 3,8%, 0,3 ponto percentual acima do centro da meta do próximo ano. Fica uma situação difícil para o Banco Central. Vamos observar o próximo comunicado para ver se o Copom (Comitê de Política Monetária) vai indicar o movimento da próxima reunião e se irá retirar o termo ajuste parcial — diz.

Ela prevê a Selic em 6,5% no fim do ano:

— Imaginávamos esse valor no fim de 2022, mas antecipamos para outubro deste ano para ser possível segurar as expectativas de 2023 e 2024.

Impacto na retomada

Especialistas avaliam que a decisão do Banco Central não é trivial. Elevar juros em ritmo mais acelerado pode funcionar como um balde de água fria na trajetória de recuperação da economia. Mas o impacto de uma alta da Taxa Selic leva de seis a nove meses para surtir efeito.

Para os economistas, não agir agora representaria um risco para a inflação do próximo ano, marcado pelas eleições presidenciais. Os juros estão em 3,5% ao ano e, após a última reunião, a autoridade monetária indicou que pode haver nova alta de 0,75 ponto percentual.

— É importante que as expectativas (para o IPCA em 2022) não se desancorem. Para isso, o BC precisará ser firme na ata, comunicando que a meta de inflação é importante para trazer a taxa para próximo de 3,5% ano que vem — disse Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, citando o centro da meta de 2022.

Segundo Rafaela, os riscos para os preços no segundo semestre estão mais relacionados ao aumento da inflação de serviços, além do impacto de uma possível prorrogação do auxílio emergencial.

governo avalia estender o benefício por mais dois ou três meses a depender do ritmo de vacinação. A injeção de recursos, porém, incentiva o consumo, o que poderia alimentar mais a inflação:

— Prorrogar por muito tempo (o auxílio) de maneira não responsável pode prejudicar o balanço fiscal e gerar mais inflação lá na frente. O fiscal também precisa manter a responsabilidade para que a inflação não saia de controle.

Folga fiscal maior

De outro lado, a inflação mais alta tem um efeito benéfico para o governo sob a ótica de que cria uma folga fiscal maior no próximo ano. Como o Orçamento é indexado pela inflação acumulada em 12 meses até junho, este patamar pode ser mais alto do que o da inflação do fim do ano.

Andrea Damico, economista-chefe da gestora Armor Capital, chama atenção para a aceleração dos núcleos de inflação (medidas que retiram as maiores variações). Segundo cálculo da economista, a média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central (BC) avançou de 0,40% em abril para 0,64% em maio, descontado o efeito sazonal.

Ela prevê que o IPCA encerre o ano em 6,2% e chegue a 4,2% em 2022. Por isso, defende a necessidade de elevação da Selic:

O BC vem insistindo que o choque é temporário desde o ano passado, mas daqui a pouco chegamos no segundo semestre, e a inflação continua persistente. O IPCA de hoje pode ser um divisor de águas para ele reconhecer. Como o próprio BC e o ministro Paulo Guedes dizem, fazer a coisa correta é o melhor que se pode fazer para o crescimento.

Fonte: O Globo

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