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Kate Winslet é impecável como paleontóloga lésbica em ‘Ammonite’

TETÉ RIBEIRO –

Começando pelo título, amonite é um molusco fóssil cujo corpo tem a forma de um saco e é rodeado de tentáculos, com concha em espiral. As amonites estão extintas desde a era mesozoica, a chamada Idade dos Dinossauros. São, portanto, objetos de interesse dos paleontólogos, que estudam a vida do passado da Terra.
Mary Anning, a personagem que Kate Winslet interpreta no filme “Ammonite”, é uma paleontóloga e coletora de fósseis que viveu na Inglaterra entre 1799 e 1847, em Lyme Regis, uma cidadezinha na costa do Canal da Mancha. Ela é muito reconhecida entre museólogos e paleontólogos.
Mas esse nome não quer dizer nada para a grande maioria das pessoas, muito por culpa da cultura patriarcal da época, um dos temas centrais desse filme potente e delicado, que tem na atuação de Kate Winslet um de seus grandes trunfos. Não fosse o fato de a atriz ter acabado de conquistar o mundo inteiro mais uma vez com sua Mare, no seriado “Mare of Easttown”, da HBO, que teve seu episódio final exibido no último domingo de maio, daria até para afirmar que o trabalho em “Ammonite” poderia ser um sério candidato ao melhor de sua carreira.
A tensão entre o desejo proibido e a repressão é outro assunto fundamental deste longa, que também pode ser classificado simplesmente de uma grande história de amor.
Mary é uma pessoa embrutecida pela vida, quase antissocial, uma paleontóloga que vive na pobreza porque, em sua época, o mundo da ciência não permitia uma mulher entre seus pares. Assim, ela tira o seu sustento de uma lojinha de suvenires montada em casa, onde mora com a mãe viúva, personagem de Gemma Jones. Ela vende o produto de seu trabalho como cientista, fósseis, conchas, pedras preciosas, objetos que colhe toda manhã na costa barrenta de uma praia cinza e gelada.
Herdou do pai o olho afiado para encontrar pedras de formatos interessantes, talento que revelou cedo, aos 11 anos, quando encontrou o fóssil mais valioso de sua vida. Vendida para ajudar no orçamento da casa, a peça foi parar no acervo do British Museum, em Londres, com o nome do cientista que a comprou de Mary como o responsável por a encontrar.
Uma tarde, um jovem rico e poderoso chamado Roderick Murchison, papel de James McArdle, membro da Sociedade Geográfica de Londres, que só aceitava homens, aparece na lojinha de Mary com sua jovem mulher pendurada no braço. Ela é Charlotte, papel de Saoirse Ronan, personagem que existiu de verdade, e com quem Mary Anning trocou muitas cartas durante sua vida. Mas o que acontece entre as duas nesta história é uma peça da imaginação do diretor e roteirista britânico Francis Lee, de “Reino de Deus”, de 2017.
Roderick está de partida para uma viagem de trabalho, e pede que Mary acolha sua mulher, que se recupera da perda de um filho, em troca de uma soma alta em dinheiro. A Charlotte o marido ordena que observe a paleontóloga em seu trabalho, para, quem sabe, ter uma parceira tão entusiasmada por ciência quanto ele mesmo.
Sem ter como recusar a oferta, mãe e filha recebem a jovem em casa, com muita má vontade. Mary e Charlotte são o oposto uma da outra. A cientista é uma pessoa solitária, desleixada, de personalidade forte. A mocinha é vaidosa e se comporta como um penduricalho de luxo do marido, que espera que ela volte o quanto antes a se mostrar inteligente e bem humorada socialmente, em vez da versão melancólica com que ele tem convivido.
Pouco a pouco, o jeito charmoso e desengonçado de Charlotte abre uma fenda na vida endurecida de Mary, e a atração que surge entre elas transforma um beijo inocente de boa noite numa cena arrojada de sexo, coreografada pelas próprias atrizes. Enquanto arrancam uma a roupa da outra, fica evidente a diferença entre elas. Mary usa um vestido velho e puído por cima de um calção solto de algodão arrancados com uma mão só, enquanto Charlotte precisa de ajuda para desamarrar seu espartilho e desfazer a amarra de seu vestido de festa.
O romance em que se atiram é ilustrado com belas passagens na praia, a mesma praia cinza e gelada em que Mary descobre seus fósseis, mas que agora se mostra romântica e palco de grandes aventuras. Charlotte, afinal, se encanta com o trabalho de Mary, como seu marido havia orientado.
Infelizmente para as duas, no entanto, Roderick volta, e traz com ele a realidade da época. O afastamento de Mary e Charlotte é sentido de maneiras diversas pelas duas mulheres, que sofrem, cada uma de seu jeito, com a readaptação da vida como ela era. Mas o diretor parece decidido a não contar apenas mais uma história trágica de um amor lésbico que não pôde existir e encerra sua trama com um fio de esperança no futuro, que fica com o espectador até bem depois de subirem os créditos.

Fonte: FolhaPress

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